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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

106º CAFÉ FILOSÓFICO - A ESSÊNCIA DAS COISAS




Deus, lápis, amor, unicórnios, triângulos-quadrados, solteiros-casados, Barcelona e Real-Madrid.
É isto um Café Filosófico!


Éramos poucos mas bons nesta última sessão de Café Filosófico. Apenas seis filósofos se apresentaram no Yoga sobre o Porto, mas desde cedo percebemos que não ia ser uma sessão normal. Todos os presentes eram filósofos de café assíduos, ou seja, participantes regulares do Café Filosófico. Apesar de apenas três de nós sermos licenciados em filosofia esse pergaminho de nada nos valeria na discussão filosófica que se adivinhava. Todos os participantes  já conheciam bem as regras que regem este nosso "jogo dialéctico" onde mais que vencer uma disputa retórica ou defender uma qualquer agenda ou causa própria interessa aprofundar um determinado tema por forma a ganhar mais compreensão sobre ele e, ao mesmo tempo, mais compreensão sobre nós próprios e o nosso lugar no mundo. É isto um Café Filosófico!


A maratona filosófica começou pelas 22h00 e estendeu-se bem para além do dia seguinte.
Começamos por escolher a pergunta da sessão:

- As coisas têm uma essência?
Imediatamente foi detectada uma ambiguidade na pergunta:

Queremos saber se há uma essência comum a todas as coisas, ou se todas as coisas têm uma essência, mesmo que diferentes entre si?


O grupo preferiu seguir a primeira interpretação da pergunta, mais grandiosa! - Ouviu-se dizer. - E difícil - acrescentei.

Depois de um período inicial em que todos estávamos ainda um pouco perplexos com a imensidão da pergunta procurámos começar por encontrar as essências de "coisas", o que nos levou a uma discussão acerca de que coisas são coisas?


Começámos por um lápis, cuja essência definiu-se como um objecto marcador com uma condensação de material 50 (esta "condensação" não tem qualquer base científica foi apenas uma hipótese de trabalho onde atribuímos à resistência do lápis o meio de uma escala de condensação que ia de 0 a 100).


Apoiando-nos na tábua de categorias dos estóicos, Substância, Quantidade, Qualidade e Relação (os conceitos onde, supostamente, encaixa tudo aquilo que há) partimos para uma busca de "coisas" que não encaixasse numa destas categorias por forma a detectarmos pistas para captar uma qualquer essência fugidia, ou eliminar essas "coisas" da categoria de "coisas com essência".
A verdade é que, por esta altura, andávamos todos um pouco perdidos e não sabíamos ao certo se isto nos ia levar a algum lado mas, quais intrépidos exploradores que se aventuram em território desconhecido, arriscámos avançar na esperança de encontrar alguma coisa que nos ajudasse a chegar ao nosso destino, ou pelo menos a encontrar um qualquer caminho um pouco mais seguro que aquele em que agora nos metíamos.

Afirmou-se que o Amor era uma coisa que não podia encaixar na categoria de "quantidade", mas o Luís retorquiu que é possível quantificar o Amor em termos de impulsos neuro-químicos, de intensidade homonal.
A esta teoria reducionista em relação ao amor o Nuno contrapôs a ideia de que a essência do amor não está em algo físico mas numa apreciação subjectiva desse algo físico.



O Luís arriscou ainda a hipótese de - Deus ser, como um triângulo quadrado, ou um solteiro-casado, um objecto impossível que, como tal, não poderia entrar no grupo das "coisas". A esta teoria eliminativista de Deus do "mundo das coisas" o Alexandre improvisou que Deus - mesmo não sendo efectivamente existente era, ainda assim, possivelmente existente (como um Unicórnio, por exemplo), logo poderia entrar no tal "mundo das coisas" com essência.


A discussão arriscava-se a perpetuar-se neste aparentemente inultrapassável problema, o de saber se estas "coisas" de que falávamos (Lápis, Amor e Deus) estavam ou não a ser alvo de um Erro de Categorização - deviam ou não ser consideradas "coisas" - e pela solução deste problema passava a possibilidade de resposta à pergunta inicial:


- As coisas têm uma essência? (não, não nos tínhamos esquecido que o objectivo desta sessão era responder a esta enorme pergunta, no entanto, a melhor forma de avançar em filosofia não é em linha recta, mas em círculos concêntricos e haviam outras perguntas que tínhamos que confrontar em primeiro lugar:

- O que é uma coisas?
- Que coisas são "coisas"?
- O que é preciso para que uma coisa seja uma "coisa"?


Depois destas divagações o Manuel sugeriu que a essência das "coisas"- mesmo aceitando a hipótese de "coisas impossíveis" como triângulos-quadrados, solteiros não casados, ou Deus (?) - seria o serem 1 (unidade).

Algumas vozes se levantaram contra esta hipótese - incluindo a minha - pois parecia-nos uma essência demasiado pouco informativa e talvez um pouco circular. A essência das coisas é serem uma coisa - parecia dizer.

Mas essa primeira hipótese de resposta permitiu-nos avançar para as seguintes e, pareceu-nos na altura, mais completas respostas:

A essência de uma coisa é ser igual a si própria - foi a minha proposta, prontamente melhorada pelo Nuno.

Finalmente, ao fim de três horas de discussão intensíssima chegámos aquela que é a resposta que apresentamos ao mundo:


- As coisas têm uma essência?

-A essência de uma coisa é a especificidade da sua relação com o ser.

Na verdade, tendo consciência que a filosofia é uma "estrada que nunca mais acaba", todos encarámos esta resposta não como uma conclusão final, uma resposta definitiva, mas como uma resposta incompleta, mais uma hipótese para pensar que servirá certamente de ponto de partida para outros Diálogos Filosóficos como este.

Independentemente de se concordar ou não com estas respostas que fomos produzindo e de as considerarmos mais ou menos meritórias do adjectivo de filosóficas, a verdade é que o nosso esforço foi sem dúvida alguma filosófico. É em sessões como estas que sentimos o que certamente sentiram Sócrates e os seus amigos quando discutiam pelas ruas de Atenas questões impossíveis como esta que aqui nos trouxe. Além disso, mesmo que as respostas não tenham a qualidade de filosóficas para algumas pessoas, a forma como avançámos na nossa investigação, arriscando hipóteses para responder a perguntas enormes, apoiando essas hipóteses com engenhosos argumentos, pensando em refutações a esses argumentos e contra-argumentos a essas refutações, estipulando definições, usando conceitos operativos que nos permitiam pensar em hipóteses ainda mais arriscadas, recorrendo a experiências mentais, analogias, metáforas, comparações, exemplos, contra-exemplo e outras "bombas de intuição" semelhantes, a verdade é que, dizia, ao fazermos tudo isso fizemos em três horas mais filosofia que um estudante normal faz desde o 10º até sair da Universidade.

E foi assim que alguns de nós decidiram passar o serão em que na televisão dava um Barcelona- Real Madrid Há doidos para tudo. Faltavas lá tu!





domingo, 15 de janeiro de 2012

CAFÉS FILOSÓFICOS EM JANEIRO

Fotografia do 100º Café Filosófico no Clube Literário do Porto


Dia 20 - 104º Café Filosófico, Colégio Sagrado Coração de Maria, Lisboa (14h00)
- este Café Filosófico é exclusivo para alunos e funcionários do CSCML - 
Dia 22 - 105º Café Filosófico, Clube Literário do Porto, Porto (17h00)
Dia 25 - 106º Café Filosófico, Yoga sobre o Porto, Porto (21h30)
Dia 27 – 107º Café Filosófico, FNAC GaiaShopping, V.N.Gaia (21h30)
Outras sessões de Diálogo Filosófico em: 


O que é um Café Filosófico 
Um Café Filosófico é um encontro de filosofia num lugar público (não necessariamente um café) onde todos podem participar numa reflexão filosófica em grupo, independentemente da sua bagagem filosófica.
Os Cafés Filosóficos que organizamos procuram proporcionar uma pequena pausa para pensarconviver ediscutir educadamente temas do universo da filosofia.
Com estes Cafés Filosóficos (e outras sessões de Filosofia Prática) temos a ambição de formar vários grupos informais de investigação filosófica na cidade do Porto e não só. Com isto quero dizer que pretendemos fidelizar um grupo (ou vários grupos) de pessoas não necessariamente com formação filosófica e que, como nós, se interessem por filosofia e tenham vontade dediscutir ideias abertamente e em grupo.
Estes Cafés Filosóficos pretendem mostrar que a filosofia pode ser um exercício descomplexado de reflexão intelectual sem a carga de erudição e obscurantismo, muitas vezes associada à filosofia académica. Se, por um lado, é uma mais valia inestimável conhecer a história da filosofia e o que disseram (e dizem) os grandes filósofos, também é verdade que este conhecimento muitas vezes se substitui ao exercício do pensamento genuíno, que cada um de nós deve fazer por si.
Nos nossos Cafés Filosóficos não descuramos nenhum contributo intelectual vindo da história da filosofia que nos possa ajudar a avaliar os problemas que temos pela frente, mas favorecemos e valorizamos aqueles contributos que surgem espontaneamente no calor da discussão e que nascem do interesse e do esforço intelectual dos participantes. Apenas estes contributos genuínos e espontâneos permitem aqueles insights cognitivos que por vezes surgem num Café Filosófico e que imediatamente são reconhecidos por todos como verdadeiros “momentos filosóficos”É fascinante ver surgir à nossa frente uma ideia ou um argumento fruto de uma mente genuinamente empenhada em pensar de forma autónomacritica.
O que anima estas sessões de filosofia é um enorme gosto pela discussão educada e pelo confronto intelectual entre pessoas reais (o oposto do mero encadeamento de discursos e ideias em 2ª mão). Este sentimento faz-nos sentir únicos, despertos, numa palavra, vivos.


Tomás Magalhães Carneiro - Instituto de Filosofia da UP (Grupo OFFilo)







sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Tudo isto é um Grande Café Filosófico!

Escada espiralada que dá acesso ao espaço Yoga sobre o Porto


A ligação entre os vários Cafés Filosóficos nem sempre é óbvia. Isto porque mais que uma ligação temática (ou problemática) é uma ligação feita pelos fios da subjectividade, da intencionalidade, dos interesses e preocupações de cada participante destas sessões. Ora, estes fios são invisíveis para todos os outros que não o sujeito que os tece.

Agora que ultrapassámos os cem Cafés Filosóficos a ideia que fica é que tudo isto é, na verdade, um Grande Café Filosófico que começou em Novembro de 2008 e ao qual regularmente voltamos após alguns períodos de descanso no "quotidiano não filosófico" em que somos obrigados a viver.

Julgo que é disto que este texto da Chantal Guilhonato nos fala e que a escadaria do número 100 da Rua dos Carmelitas (local do Café Filosófico no Yoga sobre o Porto) tão bem ilustra:
o caminho em espiral que temos vindo a percorrer desde Novembro de 2008.


No centésimo Café Filosófico foi servido um Porto de Honra gentilmente oferecido pela Porto Ramos Pinto



Do 102º Café Filosófico para o 100º, por Chantal Guilhonato


O corredor é amplo e pertence a duas casas.
Elas parecem não se importar. Acho até que gostam. Não se resguardam por trás de cortinas, vestindo apenas vidro fino. Na sua nudez, deixam-se observar por quem passa.
O corredor é amplo e conduz a três lanços de escadas que dividem atenções com um experiente elevador.
Subo, a passos, em direcção ao "Pensar o Impensável", o desafio do 102º Café Filosófico. Olho para baixo e esqueço qualquer verdade absoluta. Por pouco tempo. O aroma do chá, que se funde com o do método do pensamento crítico, liberta algumas delas:


"A verdade é uma." (Lara)

Objectividade foi o conceito essencial encontrado sob esta afirmação, prontamente refutada pelo Paulo com a hipótese de que "a verdade é uma interpretação". Para o grupo a refutação do Paulo saía do plano da Objectividade da verdade para o da Subjectividade.


A frase inicial da Lara foi ainda refutada pela Maria de Jesus com a ideia de que "a verdade é um conceito" Após alguma discussão foi votado o conceito de Subjectividade Convencional para classificar esta proposição e procedeu-se à re-classificação da frase do Paulo. Subjectividade Pessoal foi o conceito escolhido para a ideia de que a verdade é uma interpretação.


A "verdade absoluta" escolhida pela Lara, o mote para toda esta discussão de mais de duas horas, foi novamamente posta em causa pelo João com a seguinte hipótese: "a verdade é uma utopia necessária." Subjectividade Universal foi o conceito encontrado pelo grupo para diferenciar esta proposição das duas anteriores. A razão encontrada foi que apesar de ser algo subjectivo e pessoal, a ideia de verdade é algo que todos os seres humanos têm de possuir para poderem viver e sobreviver.

[nota: esta ideia de verdade defendida pelo João, o mais novo participante deste Café Filosófico, não andará muito longe da teoria pragamatista da verdade proposta por William James, e actualmente defendida, por exemplo, por Richar Rorty.]

Uma sessão marcada pela atenção às palavras. Cada uma delas.
Despeço-me do espaço e volto, em boa companhia, para junto daquela coluna vertebral em espiral.
Olho de novo para baixo e sinto amnésia de qualquer verdade absoluta.
Ligo o carro e conduzo nas memórias do 100º Café Filosófico.


Copos perfumados a rigor. Perguntas soltas:

- "A nossa vida tem objectivo?" (António)

- "Qual o nosso lugar no universo?" (Angelina)

- "Pensamos melhor quando estamos desprendidos ou sóbrios?" (Simona)

- "Que finalidade desejaríamos para a nossa vida?" (Virgílio)

- "Qual o uso que damos à nossa vida?" (Jorge)

- "Porque é que existe o ser em vez do nada?" (Cristina)

A pergunta do António prevaleceu sobre as outras e encontrou a primeira resposta no seu autor na forma de um silogismo:

"Não porque somos iguais aos animais.
Os animais não têm objectivos
Logo não temos objectivos."

O grupo nomeou esta ideia de "tese do igualitarismo" pois a recusa de um objectivo para a vida do homem acentava numa suposta igualdade com a vida dos animais.

Discutida esta ideia, e refutada até ao ponto de o seu autor a "deixar cair", outras ideias foram avançadas para tentar responder à pergunta do inicial. Entre elas a "tese subjectivista" da Maria Manuel que defendeu que "a vida tem objectivos porque nós os criamos, mas não Um Objectivo."

Entretanto apresentou-se-nos a tese do José Rui para quem "a vida tem sentido por si mesma", e que foi posta em causa por alguns participantes para quem só um ser consciente e intencional pode conferir sentido à vida. A partir daqui o diálogo desenrolou-se em torno da questão de saber se o Caos enquanto origem da vida pode ter um sentido em si mesmo, ou se apenas uma inteligência exterior pode conferir sentido ao Caos e, como tal, à vida. Aflorou também a ideia de que a vida só faria sentido para um Criador omnisciente.

No fim da sessão, e em jeito de síntese, o Paulo arriscou a ideia que "a nossa vida tem objectivo porque o próprio objectivo da vida é manter-mo-nos vivos." Mais uma vez esta ideia encontrou alguma resistência e predispôs alguns participantes a prolongarem dialecticamente o Café Filosófico para lá de qualquer horário minimanente aceitável. Tivemos de acabar aqui mais um encontro filosófico no Piano-Bar do Clube Literário do Porto (três anos depois da primeira sessão exactamente no mesmo local).

Uma sessão com sabor especial registada num livrinho de memórias [ver aqui].
Obrigada Tomás pela tua partilha de leveza.

Nota final para os supositórios atómicos do Virgílio.
Chantal Guilhonato


No centésimo Café Filosófico foi servido um Porto de Honra gentilmente oferecido pela Porto Ramos Pinto


Mais uma vez, eu é que agradeço a todos esta oportunidade que me dão de regularmente refrescar a minha mente com as vossas ideias e pensamentos.
Abraços a todos,
Tomás


Registo do 102º Café Filosófico, por Paulo Pereira

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

96º CAFÉ FILOSÓFICO - FILOSOFIA NO PALÁCIO


´
A Sala das Batalhas, no Palácio Fronteira, foi o campo dialéctico onde se desenrolou o 96º Café Filosófico. Revestida até meia altura com azulejos que celebram as batalhas da Restauração, rodeada de bustos de antepassados de Fernando Mascarenhas, que nos acompanhou nesta discussão, esta sala presenciou nesta tarde de sábado chuvoso de Novembro, outras lutas bem mais pacíficas. Uma luta de cada um de nós consigo mesmo em torno da questão primordial:
O que é a Filosofia?  

Como noutra ocasião, voltámos a tentar o caminho inverso do habitual, e procurámos outro ponto de partida para essa nossa pesquisa, outras perguntas que nos dessem novos pontos de vista sobre a pergunta inicial. As perguntas que produzimos foram as seguintes:

‎1 - O que é vida ? (uma pegunta pela existência );
2 - O que é a realidade (uma pergunta pela essência );
3 -Qual a correspondência da filosofia com o quotidiano (uma pergunta pelo valor);
4- O que ajuda a pensar ? (uma pergunta pelo caminho);
5- Pensar é fundamental? (uma pergunta pela procura)



Depois de tentarmos responder a estas perguntas alguns dos participantes avançaram algumas hipóteses para definições de Filosofia (a resposta à pergunta "O que é a Filosofia?") e a sessão terminou com a noção de que muitos são os caminhos para se chegar e os motivos para fazer filosofia.

Agradeço o convite à Associação de Amigos das Casas de Fronteira e Alorna, em especial à Teresa Vilhena que não descansou enquanto não levou o Café Filosófico ao Palácio, e ao Fernando Mascarenhas, nosso anfitrião.

Um abraço a todos, espero voltar!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

93º CAFÉ FILOSÓFICO - Aparência e Realidade



Cafés Filosóficos e Conversas de Café

Não há dois Cafés Filosóficos iguais. E é essa mesma variedade de sessões, de estilos de moderação, de problemáticas e de formas de participação que torna difícil a definição do próprio conceito de Café Filosófico. Se há algo que um Café Filosófico não é, é Conversa de Café. Numa Conversa de Café cada um diz o que quer, na altura que quer e normalmente diz aquilo que considera ser importante e inadiável. Aí os discursos atropelam-se, as ideias misturam-se, a conversa começa num ponto e rapidamente salta para outro, e outro e ainda outro e todos falam, alguns berram e, normalmente, não há uma real compreensão do que é dito. Ou, a existir essa compreensão ela é muito superficial ou muito tácita, o que, de ambas as formas é uma compreensão pouco filosófica que se quer profunda e explícita.


Outra diferença flagrante entre um Café Filosófico e uma Conversa de Café está em que normalmente saímos de uma Conversa de Café com as certezas com que iniciámos a conversa ainda mais firmes uma vez que tudo o que fizemos nessa conversa foi afirmar e reafirmar aquilo em que já acreditávamos. Já num Café Filosófico é normal sairmos com as nossas certezas feitas em cacos pois o que se faz num Café Filosófico é ouvir críticas às nossas ideias de uma forma tranquila e racional. Uma vez eliminada a nossa ânsia em nos afirmarmos e em nos defendermos estamos mais aptos a ouvir a razão que muitas vezes está do lado dos outros e não do nosso lado.


É por estes motivos que apenas confunde um Café Filosófico com uma Conversa de Café quem nunca participou num Café Filosófico, uma vez que o que se faz lá é exactamente o contrário do que se faz numa Conversa de Café.


Julgo que o Café Filosófico deste domingo no Clube Literário do Porto foi um bom exemplo do contraste entre estas duas formas de conversar (a filosófica e a meramente social). Do meu ponto de vista, enquanto moderador, foi uma sessão esgotante pois tive de lidar com os obstáculos que naturalmente surgem numa sessão filosófica deste tipo, ainda por cima contando com uma grande percentagem de participantes jovens (estudantes do ensino secundário e universitário que participavam num Encontro Nacional de Estudantes de Física) ansiosos por se exprimirem, criticarem, lançarem ideias atrás de ideias. Ainda do meu ponto de vista foi uma das sessões mais gratificantes que tive até hoje, exactamente pelos mesmos motivos que acabei de enunciar.

Quanto ao ponto de vista dos participantes, obviamente que cada um terá o seu e que este será único e irrepetível. Felizmente continuamos a contar com a disponibilidade da Chantal Guilhonato para nos revelar o seu ponto de vista de mais um destes nossos diálogo filosóficos. Em baixo seguem as suas notas. A foto desta sessão é do Paulo Pereira. A todos muito obrigado.


Notas de Chantal Guilhonato do 93º CAFÉ FILOSÓFICO no Clube Literário do Porto

A placa de matrícula à minha frente não tinha letras nem algarismos. Apenas ponteiros. Os imaginários tictatiavam-me que chegaria a tempo. Os outros ignorei-os.

Fiz a vontade ao rádio que me pedia descanso e entrei no CLP.

A sala estava cheia de pessoas e senti o cheiro fresco a ideias. À medida que pedia licença para chegar à única cadeira por colonizar, tornou-se claro que afinal o ar já transpirava reflexão.

Parou de imediato o meu relógio de Alice no país das maravilhas.

Deixei-me invadir pela perda de um tempo partilhado apenas por outros. Agora tinha de pedir licença à mente para me deixar correr atrás de argumentos que estavam em maratona há meia hora.

Descobri o tema da sessão Realidade e Aparência e que o exercício proposto ao público presente era o de “problematizarem” esses conceitos, ou seja, que fossem propostas perguntas que nos ajudassem a penetrar mais fundo na nossa compreensão dos conceitos de “Realidade e Aparência”. Olhei para as duas perguntas de silhueta preta, desenhadas pelo marcador do Tomás.

- Até que ponto podemos distinguir a aparência da realidade (Inês)?

- A aparência condiciona a percepção da realidade (António)?

Enquanto se procuravam os conceitos essenciais de cada uma delas, pedi-me um tempo extra e entreguei-me à atmosfera da sala. Tecidos caracteriais vestiam ideias ora vivas e impacientes ora ponderadas e reflectidas.

«Quantidade» foi o conceito mais votado para classificar a primeira pergunta e «Possibilidade» para a segunda. Pelo meio ficaram «Relação», «Veracidade» e «Transformação».

Antes de nascer uma terceira pergunta, o Tomás propôs-nos que distinguíssemos quatro tipos de relações possíveis. Estes diferentes conceitos poderiam ajudar-nos na tarefa de classificar/diferenciar as perguntas que iam surgindo:

• Necessidade

• Possibilidade;

• Probabilidade

• Impossibilidade;

Uma terceira pergunta surgiu no quadro.

- Podemos chegar à realidade (Rui)?

Foram propostos quatro conceitos para classificar esta pergunta:

• Qualitativo (Maria Manuel);

• Capacidade (Carla);

• Possibilidade (Inês);

• Finalidade (Alice).

Eu continuava a pedir-me tempo para observar o que ouvia.

Depois de debatidos os dois conceitos escolhidos, neste caso «Possibilidade» (associado a uma limitação absoluta) e «Capacidade» (associado a uma limitação humana), foi votado o conceito de «Possibilidade».

Dado que a segunda e terceira perguntas tinham o mesmo conceito associado (Possibilidade), procurou-se a diferença entre ambas:

O António arriscou uma hipótese: na pergunta 2 estaríamos perante uma «possibilidade subjectiva» e na 3 de uma «possibilidade objectiva».

Já para o Ricardo: na pergunta 2 estaríamos perante uma «possibilidade circunstancial» e na 3 de uma «possibilidade universal». Esta sugestão foi a escolhida pelo grupo.

[Todo este processo de clarificar e classificar as três perguntas sugeridas pelos participantes não é mais que procurar pôr em prática uma metodologia de investigação filosófica proposta por Descartes: avançar através de ideias claras e distintas.]

Das três perguntas o grupo seleccionou a última: Podemos chegar à realidade?

Partimos então em busca de algumas respostas:

- Sim, porque a percepção é um sub-conjunto da realidade (Tiago);

- Sim, porque a realidade existe (Carla).

Aqui a Maria Manuel considerou não existir argumento pois a existência da realidade não nos permite concluir que a podemos atingir.

Em contraposição, o Rui considerou irrelevante tentarmos perceber se existia ou não um argumento. O grupo discutiu então a pertinência ou não da argumentação num diálogo filosófico.

No final alguns dos participantes avançaram com uma definição para realidade e/ou aparência:

- Realidade é o conjunto das percepções;
- Realidade é um conceito inventado para explicar o que não conseguimos entender;
- Realidade é um universo material;
- Aparência é a nossa realidade pessoal;
- Realidade é tudo o que existe;
- Realidade é tudo o que sinto;
- Aparência é a nossa percepção da realidade;
- Realidade é a verdade da aparência.

Concedi o que me fui pedindo: tempo às ideias para observar.

Na realidade não sou a Alice mas vou fazer de conta. A placa de matrícula não tinha ponteiros, apenas letras e algarismos.



Eram quase oito e meia da noite e já não tínhamos mais tempo para continuar o Café Filosófico (começou às cinco e meia). No entanto a sessão continuou para mim e para mais alguns participantes pelo jantar adentro e até às três da manhã debatendo estas e outras questões que entretanto foram surgindo na companhia de umas francesinhas e uns finos. Para outros que não nos acompanharam no nosso pequeno “symposium” sei que a discussão do final da tarde continuou a sentir-se por algumas horas mais, como o som de um sino que continua a ouvir-se muito depois do badalo ter batido no ferro. É isso que atesta esta mensagem do António que recebi na manhã seguinte e que aqui reproduzo, assim como a minha resposta.


- Acho curioso que nos negue a definição dos conceitos, de que tanto precisamos para edificar a casa que é o dia, em bases íntimamente sólidas. Primeiro o "geral" e depois... mais tarde, o "singular". (António)

- Olá António,
esta é apenas uma metodologia de debate filosófico que gosto de experimentar, nada mais do que isso. Não tem nenhum carácter metodológico especial além de ser um contributo para nos pôr a pensar.

Não há dúvida que começar por definir os termos da discussão é a forma canónica de se fazer filosofia e teria filósofos como Spinoza e Descartes a dar-lhe razão. Por outro lado Hegel dir-nos-ia que é a Dialéctica dentro do próprio conceito a força motriz da filosofia, e o que fazemos neste tipo de sessões é, exactamente, explorar essa dinâmica existente dentro dos conceitos.

Mas a minha motivação (enquanto moderador de debates filosófico) para favorecer esta investigação "in media rés" (digamos assim) é que a discussão não se afunde numa procura de definições, uma constante e interminável busca pelos "O que é X?". Desta forma não trabalhamos apenas definições mas outras competências filosóficas como a "Problematização" (levantar perguntas a conceitos (como na sessão de ontem), que com a dinâmica do grupo nos permite ver problemas onde antes não viamos, a "Conceptualização" (análise e sintese conceptual e a "Argumentação".

O facto de deixarmos a Definição para o fim também faz com que essa mesma definição esteja mais informada. Mas como lhe disse no início, é apenas um recurso metodológico sem qualquer intenção para além disso. (Tomás)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

91º CAFÉ FILOSÓFICO - LIBERDADE E AUTONOMIA


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(ver a partir dos 3´30´´)
A partir da adaptação de uma experiência mental muito conhecida, a experiência do "prisioneiro voluntário" de John Locke procurámos aprofundar as nossas intuições acerca destes conceitos tão fundamentais para nós - Liberdade e Autonomia - e, como é normal nas nossas discussões nos Cafés Filosóficos, deparámo-nos pelo caminho com outros conceitos e problemas sobre os quais importava reflectir para dessa forma lançar alguma luz sobre o problema inicial.





Foi assim que nos deparámos com as ideias de Tempo, Causalidade, Necessidade, Livre Arbítrio, Condição, Desejos, Determinismo, Vontade, Possibilidade, etc.




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Ao cabo de duas horas e trinta minutos (tempo gasto ou ganho, dependendo das perspectivas e espectativas de cada um) acabámos com mais perguntas que aquelas com que começámos, algo que também é bastante comum nestas sessões:


- Para quê pensar sobre a liberdade?
- O que é a liberdade?
- Somos livres?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

90º CAFÉ FILOSÓFICO - CONHECIMENTO DE SI



Esta sessão de Café Filosófico foi um pouco diferente do habitual. Em vez de nos focarmos no diálogo ou no debate de ideias entre os participantes fizemos sobretudo um trabalho de reflexão sobre o nosso próprio discurso. Mais que dialogar importava sobretudo pensar, e o discurso é, muitas vezes, não um veículo para o pensamento mas um obstáculo. Nesta sessão, para pensar melhor procurámos parar a "torrente discursiva" natural no ser humano e convidar cada participante a classificar esse acto discursivo em relação ao seu objectivo. Esta técnica de "metapensamento" (pensar sobro o pensamento) permite reconhecer a direcção da nossas ideias. Esta é uma técnica muito útil se queremos utilizar o nosso discurso mais como uma ferramenta para pensar que como uma forma de expressão.

É verdade que em pouco mais de duas horas avançámos muito pouco ao nível do conteúdo das proposições produzidas (um argumento inicial, algumas análises e uma refutação), mas julgo que avançámos muito no conhecimento das nossas próprias limitações para o diálogo racional e, dessa forma, conhecemo-nos todos um pouco melhor a nós mesmos . Conhecimento de Si, era o tema desta sessão.



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88º CAFÉ FILOSÓFICO - APARÊNCIA E REALIDADE


domingo, 2 de outubro de 2011

87º CAFÉ FILOSÓFICO - QUAL É A TUA CAVERNA?


Notas de Chantal Guilhonato  CAFÉ FILOSÓFICO da última quarta-feira no Yoga sobre o Porto

O que pode haver por trás de uma porta?

O magnetismo de um corpo curvado pelo cansaço. Uma tontura em forma de caracol. Três lanços de prazer.
Apaixonei-me pelas escadas do espaço Yoga sobre o Porto.
O local é envolvente. O último Café Filosófico também.

O estímulo inicial da sessão foi uma frase de Miles Davis «A vida, tal como a música, é apenas uma questão de estilo».

O desafio foi o de nos conhecermos a nós próprios, tendo como princípio orientador a ideia platónica de filosofia como um «sair da caverna». Para isso, é importante conhecermos os limites da nossa caverna e encontrarmos formas de ultrapassar esses limites.
Com as chávenas de chá a partilhar fumo, o grupo passou 10 minutos a debater sobre a frase de Miles Davis com o objectivo de se comprometer no final com uma resposta, unanimemente aceite. Enquanto isso, o Tomás permaneceu em silêncio, com o olhar a capturar gestos, olhares e atitudes.
A conclusão foi não termos chegado a nenhum consenso, apesar da sistematização feita pelo António:
«A vida, tal como a música, é a forma de a abordarmos».

O Tomás partilhou connosco o que teve oportunidade de observar, durante o seu silêncio activo. A hipótese que nos sugeriu foi a de que aquilo que caracterizou a nossa participação no diálogo representa também a essência daquilo que somos. Mais que os nossos discursos e raciocínios sobre a frase de Miles Davis, importava agora pensar profundamente sobre a nossa "filosofia de vida", aquilo que nos define. O "conhece-te a ti mesmo" socrático seria o nosso princípio orientador daí para a frente.
Com as chávenas de chá a partilhar mais fumo, foi-nos pedido para encontrarmos um conceito que classificasse a nossa participação pessoal no debate de ideias de 10 minutos que tivemos.

Uma transcrição despida de nomes:

•Disciplina
•Observação
•Insatisfação
•Assimilação
•Medo
•Verdade
•Empatia
•Contenção
•Egocentrismo
•Submissão
•Conciliação

Após votação, o conceito que foi escolhido para ser mais amplamente analisado foi o de «submissão».

Um Café Filosófico diferente do qual se libertaram alguns aromas:
•como ampliar as nossas competências/capacidades?
•importância de conhecermos um pouco melhor os limites da nossa caverna e qual a forma de sair dela.

O que pode haver por trás de uma porta?
Subidas e descidas.

P.S.Muito obrigada a todos no Yoga sobre o Porto, em especial ao Luís e ao Joaquim, pela forma como nos receberam em sua casa. Tomás a ti um grande abraço.

Um beijinho a todos e obrigada por tudo,
Chantal

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

86º CAFÉ FILOSÓFICO - O QUE É A FILOSOFIA?


O que é a Filosofia?

Foram muitas as vezes que esta enorme pergunta surgiu ao longo destes quase três anos de Cafés Filosóficos. Hoje foi, porém, a primeira vez que a confrontamos de uma forma explícita e nos lançámos numa reflexão conjunta para lhe tentar responder.


A razão porque só agora propusemos esta pergunta para um Café Filosófico está de alguma forma ligada à metodologia que hoje utilizamos para lhe tentar responder. A razão é que, ao contrário do que normalmente se pensa, não é necessário começar uma investigação filosófica pela definição dos conceitos em jogo. Esta definição é, sem dúvida, útil e a partir de certo ponto absolutamente essencial. Porém essa definição pode surgir a meio ou no fim da investigação filosófica após um período inicial no diálogo de troca de ideias, interpretações e significados e à medida que os argumentos e os pedidos de clarificação e síntese vão surgindo naturalmente no debate.


Da mesma forma também nós nos Cafés Filosóficos não precisámos de definir o que era a "filosofia" para começarmos a filosofar. Acredito até que essa ânsia por fixar o significado dos termos (no contexto de um Diálogo Filosófico) é ao mesmo tempo inglória e limitadora das possibilidades que um Diálogo Filosófico nos dá.
É inglória pois lança-nos numa busca pelos fundamentos de algo quando ainda nem sequer conhecemos muito bem o terreno em que nos movemos, uma vez que ainda não experimentámos os diversos conceitos e problemas que orbitam em torno do conceito a definir. É limitadora pois impede à partida a exploração dialógica que a ambiguidade e vagueza dos conceitos filosóficos nos permite.


Nesta sessão seguimos uma metodologia conhecida por "Perguntar à Pergunta." - a mesma utilizada por Walter Kohan neste Café Filosófico.
O que este método nos sugere é que em vez de procurarmos directamente a resposta a uma pergunta (a definição de filosofia, neste caso)  iniciemos uma busca por outras perguntas que de alguma forma nos iluminassem alguns dos pressupostos por trás da pergunta inicial.


As notas que se seguem são, como habitualmente, da Chantal Guilhonato e as fotografia são do José Rui M. Correia.



"Escavar buracos na areia. Gosto disso, desde pequena.
Porque escavas se a maré está a subir?
E se a maré resolvesse não subir...

Contrariar a direcção do pensamento comum. Este foi o ponto de partida do último Café Filosófico: procurar os pressupostos filosóficos da pergunta «O que é a Filosofia?» e tentar perceber de que forma eles nos poderiam ajudar a responder à pergunta inicial.

O Fernando avançou com a primeira questão:
A filosofia é necessária?

A Salomé rejeitou a questão do Fernando propondo em sua vez a pergunta:
O que é o conhecimento? A razão apresentada pela Salomé para a antecedência desta pergunta em relação à do Fernando foi que apenas posso sentir necessidade daquilo que conheço.

Outros participantes perseguiram esta pista e a interrogação da Salomé evoluiu para:
Qual a distinção entre conhecimento e filosofia?

O Nuno considerou que as questões anteriores estavam utilizar como um dos seus termos o conceito de "filosofia" que era aquele que se estava a tentar definir. Desta forma estas perguntas perdiam a sua pertinência pois não seriam capazes de nos ajudar na definição de "filosofia".

O Alexandre perguntou então se é necessário definir algo para o conhecer?

Para o Zé Rui, a pista de reflexão assentaria sobre a questão:
Porque surgiu a filosofia? (entendido neste caso como «motivo». A ambiguidade do conceito "motivo" foi tornada evidente com as diferentes interpretações dadas pela Salomé que entende por "motivo" uma «vontade Universal» e para o Jorge que entende por motivo «causas culturais».

A pergunta proposta pelo Jorge estava certamente ligada à sua última intervenção pois surgiu depois de nos ter contado um episódio em que conheceu um "feiticeiro" tribal que considerava um filósofo, "mais filósofo que muitos filósofos ocidentais":
Só pode ser filósofo quem sabe o que é a filosofia? (Jorge)


Para o Nuno, a pergunta central seria antes
O que é o Homem?
Esta questão foi rejeitada pelo Tiago por considerar utópico tentar respondê-la para se chegar à de finição de filosofia, e foi considerada demasiado abstracta pela Salomé).

Por fim, o Tiago propôs-nos a pergunta:
Qual o objecto de estudo da filosofia? A Joana numa tentativa de clarificar a pergunta do Tiago fez com que surgisse uma outra pergunta que poderia interesar à nossa investigação:
Qual o objectivo da filosofia?

Ficámos então com uma lista de perguntas que não só nos iluminaram o caminho para as respostas à pergunta inicial, "O que é a filosofia?", como nos deram outras tantas pistas de investigação para outras sessões de Café Filosófico.

O que é a filosofia?
A filosofia é necessária?
O que é o conhecimento?
Qual a distinção entre conhecimento e filosofia?5 - É necessário definir algo para o conhecer?
Só pode ser filósofo quem sabe o que é a filosofia?
O que é o homem?
Qual o objecto da filosofia?
Qual o objectivo da filosofia?


No final da sessão o Tomás pediu-nos a nossa definição de Filosofia, agora informada de toda a discussão em torno das perguntas que foram surgindo:

•A filosofia é um sistema de reflexão sobre as relações do Homem com o Universo (António)

•A filosofia procura dar respostas a realidades não palpáveis (Salomé)

•A filosofia esclarece a relação entre o Homem e o Objecto (Fernando)

•A filosofia é uma prática pessoal (Chantal)

•A filosofia tenta apaziguar a complexidade (Tiago)

•A filosofia é um questionamento crítico que visa o auto-conhecimento (…) (Nuno)

•A filosofia procura discutir com método perguntas através de outras perguntas (Joana)

•A filosofia é uma atitude perante o conhecimento e os Homens

•A filosofia é um sistema de compreensão de ideias

•A filosofia é uma desconstrução do pensamento (Luís Baptista)

•O objectivo da filosofia é chegar à ausência dela. Chegar ao dia em que ninguém vai filosofar (Zé Tapum).


E se a maré resolvesse não subir..."

Chantal


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

CAFÉ FILOSÓFICO SOBRE A FELICIDADE






No domingo passado, 26 de Dezembro de 2010, o Clube Literário do Porto recebeu-nos para o 56º Café Filosófico desta vez em torno da ideia de Felicidade.

Nesta sessão procurei que os participantes experimentassem passar pelas diversas etapas de uma investigação filosófica (Conceptualização, Problematização, Argumentação, Definição e Síntese) o que, julgo eu, contribuiu para uma melhor compreensão do conceito de Felicidade para todos os presentes.

Começámos por criar uma rede de conceitos de alguma forma relacionados com o conceito de Felicidade tendo o grupo proposto conceitos como Alegria, Profundidade, Superficialidade, Temporalidade, Contínuo, Liberdade, Projecto, Sentido da Existência, Qualidade/Quantidade, Meta, Espontaneidade, Consciência, Medo, etc. Esta viagem pelos conceitos próximos do conceito a estudar, um movimento cognitivo conhecido como Conceptualização, permitiu-nos "abrir" a ideia de felicidade a diversos pontos de vista sobre a Felicidade e conhecer diferentes usos e diferentes contextos desses conceitos. Uma lição wittgensteiniana, portanto.

Em seguida, e para continuar com os ensinamentos metodológicos de outros filósofos antes de nós, procurou-se cortar a "barba de Platão" com a "navalha de Ockham", imagens que correspondem às duas posições metafísicas com as quais nos podemos comprometer segundo Quine. A primeira leva-nos a uma multiplicação de conceitos e entidades (comos as Ideias na Teoria Platónica) e a segunda a uma maior exigência na escolha das entidades que ocupam o nosso espectro metafísico (o Princípio da Parcimónia, ou seja, uma espécie de minimalismo metafísico que Okham nos aconselha a seguir).

Por outras palavras (menos metafóricas, espero) tinhamos que escolher uma via de investigação e precisávamos de uma pergunta que nos indicasse essa via. Entrávamos aqui num segundo momento da nossa investigação, o momento da Problematização e o desafio lançado aos filósofos presentes no Clube Literário foi de que formulassem uma pergunta que juntasse um ou mais dos conceitos da rede conceptual encontrada. Surgiram facilmente várias perguntas que rapidamente encheram o quadro branco que utilizo nestas sessões para registar o fio da discussão. O desafio seguinte foi então seleccionar quatro perguntas que fossem ao mesmo tempo claras e originais eliminanamdo-se para isso as perguntas mais confusas (ambíguas ou vagas) e aquelas que se repetiam. Para isso voltámos a recorrer à capacidade de conceptualização dos participantes (uma capacidade que nos afasta dos animais, defendem alguns), desta vez no sentido contrário da "abertura numa rede conceptual" com que iniciámos a sessão.
Procurou-se captar/fechar" a idea central de cada pergunta num conceito-chave que a sintetizasse (momento da síntese).
Nestas sessões de prática filosófica (seja com adultos seja com crianças) procuro sempre utilizar a síntese quando quero chamar a atenção do grupo para uma possível comparação (ou contraste) de duas posições que considero semelhentes ou antagónicas. A síntese é um instrumento cognitivo muito eficaz que nos permite detectar com facilidade e clareza as diferenças ou semelhanças entre diferentes proposições ou perguntas.
A síntese é também uma forma de aprofundarmos um pouco mais a nossa compreensão da problemática em volta do conceito que estudamos uma vez que ao sintetizar é comum utilizarmos um conceito que nos permite englobar, clarificar ou superar outros conceitos presentes no argumento ou pergunta inicial. Sintetizar é muitas vezes uma forma de ver as coisas de outra forma, digamos assim (devemos a filósofos como Hegel não esta capacidade humana de sintetizar mas o ter-nos chamado a atenção para ela).

O resultado desta operação conjunta entre as nossas capacidades problematizadora e sintetizadora materializou-se nas seguintes perguntas:

1 - É possível não procurar a felicidade? (Possibilidade)

2 - Qual a essência da felicidade? (Essência)

3 - A felicidade existe? (Existência)

4 - O que nos faz felizes? (Critérios)*

O grupo escolheu a última pergunta como alvo da nossa investigação para o resto da sessão e entrámos sem perder tempo noutro momento da investigação: a Argumentação.

Foram avançadas algumas hipóteses que foram por sua vez postas em confronto com refutações, contra-argumento, pedidos de clarificação e de definição avançadas por diversos elementos do grupo (todos particularmente activos, diga-se de passagem). No entanto, aquela que gerou mais polémica foi a de um participante habitual destas sessões no Clube Literário:

O que nos faz felizes é não pensar na felicidade nem procurar a felicidade. (Jorge)


Como invariavelmente acontece são as intervenções mais interessantes que suscitam mais críticas, exactamente porque tocam sempre em "pontos filosoficamente sensíveis", ou seja em concepções basilares de determinados conceitos que nem todos subscrevemos. A opinião do Jorge não terá sido imediatamente compreendida por todos os presentes - até porque esta surgiu sem uma justificação - mas a ideia de que a felicidade não deve ser procurada vai de encontro a uma tradição filosófica oriental (com alguns revivalismos new age) que nos diz que a própria procura da Felicidade cria no sujeito uma série de insatisfações que aniquilam à partida o próprio projecto de encontrar a Felicidade.

Como balanço final deixo aqui transcrito um comentário de uma das participantes (a Céu) para quem  nesta tarde em três horas de discussão percorremos um pouco do legado intelectual de 2500 anos de filosofia. Foi talvez por isso que ninguém queria sair do Clube Literário do Porto no fim do Café Filosófico e alguns de nós ainda lá continuamos mais uma horita a "limar" alguns conceitos e argumentos.

Abraços e Feliz 2011 para todos!


* nota: Como referi na sessão tenho verificado ao longo destes muitos Cafés Filosóficos e sessões de filsoofia que tenho vindo a moderar tanto com crianças como com adultos que este movimento de procura de um conceito que faça a síntese uma ideia ou problema quase invariavelmente nos leva a conceitos basilares da história da filosofia, presentes por exemplo nas propostas ontológicas (a Ontologia é o estudo daquilo que há) de Grandes Filósofos como Aristóteles nas Categorias ou Kant na Crítica da Razão Pura.
Se ainda duvida percorra as listas de categorias ontológicas propostas por estes dois filósofos aqui e compare-as com a pequena lista de conceitos fundamentais que atingimos nesta sessão, sobretudo os três primeiros: Essência, Existência, Possibilidade).
 A conclusão que tiro daqui é que todos temos em nós um Grande Filósofo em potência e que apenas precisa de ser "convidado" a sair cá para fora. Nada que Sócrates não nos tenha já dito, é claro.


Fotografias de José Rui M. Correia

domingo, 18 de julho de 2010

Jovens Filósofos 2010 "Existe matéria no Universo?" Bernardismo vs. Baptistismo



Aula 12 – 13 de Julho (Turma 1A – 3ª semana)


“Pensar o impensável”

No início de cada sessão basta esta expressão escrita “Pensar o impensável” para suscitar expressões de incómodo, desagrado e incompreensão por parte dos alunos. Excelente começo, portanto.

“Pensar o impensável não é possível." Dizem alguns.

”Não podemos pensar o que não se pode pensar.” Dizem outros.

“É uma contradição pensar o que não é possível pensar.” Idem aspas.


É quando lhes perguntamos se é impensável pensar que a expressão “Pensar o impensável” faz sentido que começa a fazer-se luz nas suas cabeças. Alguns alunos procuram então perceber o significado dessa misteriosa expressão, e daí surge naturalmente a pergunta “O que é pensar o impensável?”


“É pensar o que ainda não pensámos”, diz-nos o Bernardo. “Pensar o impensável é tentar explicar o impossível.” “E para que serve explicar o impossível”, perguntamos. “Serve para percebermos por que motivo é impossível.”

“Eu não concordo”, diz o Orlando”, para mim pensar o impensável é pensar em coisas que ninguém se interessa porque ninguém pensa a sério nelas.”

Apesar das insistências para darmos a nossa própria interpretação desta expressão preferimos não matar a sua curiosidade e deixar no ar outros possíveis significados.


Convidámos então os alunos a formularem uma frase que considerassem uma “verdade absoluta”, ou seja uma frase que fosse impensável considerar falsa. Depois pedimos a todos que “pensassem o impensável” procurando refutar cada uma das verdades com que nos íamos defrontando.


“Os humanos respiram”, foi a primeira verdade absoluta da sessão, e foi avançada pela Helena.


Depois de uns breves minutos iniciais de reflexão surgiu a primeira crítica pela mão da Lília: “Quando morremos deixamos de respirar mas continuamos humanos. Por isso há humanos que não respiram: os mortos.”


Como costuma acontecer as outras críticas vieram em catadupa. “Esta verdade é incompleta”, arriscou o Guilherme, “não diz o que é que respiramos. Se água, dióxido de carbono, areia ou oxigénio. Por isso não pode ser uma verdade absoluta”.

“Nem só os humanos respiram”, disse-nos o Orlando adivinhando um possível pressuposto da frase da Helena, de que “apenas os humanos respiram.” Este pressuposto foi imediatamente rejeitado pela Helena, pelo que abandonámos a crítica do Orlando.

O Bernardo descobriu um conceito pouco preciso na frase da Helena. “O termo correcto é ventilar, por isso não é verdade que respiramos.” E, por fim, o João avançou esta bem original crítica à “verdade absoluta”da Helena: “Debaixo de água estamos vivos (ao contrário da Lília o João não considerava os mortos seres humanos) e não respiramos. Por isso os humanos nem sempre respiram.”


Como já escrevi noutro post este exercício é, não só, uma boa forma de acicatar o espírito crítico e criativo dos alunos fazendo-os problematizar e aprofundar os vários significados de diversos conceitos (a única forma de conhecermos o alcance dos conceitos que usamos), mas também de os fazer ver que ligados a esses diferentes significados encontram-se os diferentes pressupostos das diversas asserções e argumentos com que nos confrontamos. Depende dos pressupostos que encontrarmos (“aquilo que eu queria mesmo dizer”, como por vezes os alunos referem) a avaliação final de cada uma das verdades absolutas avançadas.


Depois de um breve intervalo retomámos o trabalho de criticar as diversas verdades dos nossos colegas. Aqui elevámos o grau de dificuldade do exercício e pedimos aos alunos que elegessem aquela frase que considerassem mais difícil de ser refutada.
A honra recaiu sobre a frase do Baptista:

“Existe matéria no universo.”

Todos reconhecemos a dificuldade desta tarefa (criticar esta frase parecia-nos a todos verdadeiramente impensável) mas esta dificuldade não nos impediu de tentar. Lançámo-nos então a tentar analisar e problematizar os diferentes conceitos utilizados: Existência, Matéria e Universo. Eram estas as “portas de entrada” para uma possível crítica à verdade do Baptista.

Começámos bem o nosso trabalho com um dos filósofos a gizar um excelente argumento para refutar a verdade do Baptista (o baptistismo).


“Tudo o que há é matéria. Logo não EXISTE matéria no universo, o universo É matéria.”


Este argumento surpreendeu-nos a todos pela sua originalidade e arrojo, mas o Baptista não se deixou ficar e contra-argumentou da seguinte forma.

“Nem tudo no universo é matéria, também há espaços vazios.”
Mas a originalidade destes Jovens Filósofos que procuravam pelas suas próprias cabeças refazer os passos de pensadores como Tales, Anaxímenes ou Anaximandro não se ficou por aqui. Para o Bernardo “no Universo não existe apenas matéria e espaço vazio, mas também emoções, ideias, sentimentos.” O Bernardo chamou a estes elementos “imatéria”. Outros alunos avançaram com outras formas de “imatéria” como a força da gravidade e a electricidade.

A partir desta ideia radical alguns alunos concluiram que na verdade tudo no universo é “imatéria” pois o elemento mais básicos da matéria é a electricidade, que “não se pode tocar, por isso é imaterial”.

Por esta altura concluimos que a turma se dividia em duas escolas filosóficas antagónicas: os Baptististas que defendiam o “materialismo” e os Bernardistas que defendiam o “imaterialismo”.


Seguiu-se um pequeno debate para sabermos se por “Universo” devemos considerar as “coisas tal como nos aparecem” (estrelas, cadeiras, pedras, etc.) ou as coisas tal como são realmente” (electricidade e espaço vazio). O grupo chegou à conclusão que se por “universo” entendermos a primeira opção seremos Baptististas, i.e., “materialistas”. Por outro lado se seguirmos a segunda opção seremos Bernardistas, ou seja, “imaterialistas”.



Nota Final
Não sei se um físico iria ficar muito satisfeito com as conclusões a que chegámos neste debate mas eu, enquanto filósofo, fiquei. Estes alunos durante uma manhã debateram-se com os mesmos problemas dos primeiros filósofos pré-socráticos e de muitos outros pensadores depois deles ("o que é o Universo?", "de que é feito?", "o que é a matéria?", "quais os seus componentes últimos?", etc.) e, a meu ver, estiveram à altura do desafio.
Grandes Filósofos estes Jovens Filósofos. Parabéns!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Jovens Filósofos 2010 "Eu chamo-me Jorge Silva?"




Sessão de Filosofia com Crianças (12_14 anos) na Universidade Júnior do Porto (2010)

Duração: 3 horas

Exercício : “Pensar fora do quadrado” ou “Pensar o impensável”

1) Os alunos pensam numa frase que acreditem ser “absolutamente verdadeira”;

2) Lêem-se todas as frases;

3) Escolha de uma frase que a maioria considera poder ser refutada;

4) Debate;

5) Escolha de uma frase que a maioria considera ser irrefutável;

6) Debate.


Objectivos

Elasticizar conceitos e crenças;

Alargar pontos de vista;

Aprender com ou outro (criticar, ser criticado, construir a partir das críticas)



Aula 11 – 12 de Julho (Turma 1E – 3ª semana)


Verdade 1: "Eu chamo-me Jorge Silva." (Jorge)

Crítica:  "Esta frase não é uma verdade absoluta. Só é verdade para ele, para mim não pois eu chamo-me Tomás. (Tomás)
"Uma verdade absoluta tem de ser universal, e esta é pessoal." (António)



Verdade 2: "Existe vida na Terra." (Luísa)

Crítica 1: "Não existe vida no núcleo da terra."
Defesa da Luísa: "O que eu queria dizer é que existe vida na crosta terrestre."

Crítica 2: "Marte também é uma terra e lá não há vida."
Defesa da Luísa: "Eu estava a falar do Planeta Terra, com letra grande."


nota: Este exercício "Pensar o impensável" é uma excelente forma de encontrar os pressupostos das asserções dos alunos. Muitas vezes esses pressupostos estavam "escondidos" dos próprios autores das frases e é a crítica dos colegas que os faz perceber "o que eles queriam mesmo dizer."

Jovens Filósofos 2010 "O que é o óbvio?"





Sessão de Filosofia com Crianças (12_14 anos) na Universidade Júnior do Porto (2010)

Duração: 3 horas


Exercício : “Pensar fora do quadrado” ou “Pensar o impensável”

1) Os alunos pensam numa frase que acreditem ser “absolutamente verdadeira”;

2) Lêem-se todas as frases;

3) Escolha de uma frase que a maioria considera poder ser refutada;

4) Debate;

5) Escolha de uma frase que a maioria considera ser irrefutável;

6) Debate.


Objectivos

Elasticizar conceitos e crenças;

Alargar pontos de vista;

Aprender com ou outro (criticar, ser criticado, construir a partir das críticas)


Aula 10 – 9 de Julho (Turma 1D – 2ª semana)


Verdade 1: “A relva é verde” (Alexandra)


Crítica 1: “A relva quando seca é amarela.” (Bábá)

Concluiu-se que esta crítica encontrou uma fragilidade na “verdade” da Alexandra: não nos diz a altura do ano em que a relva é verde.
Temporalidade foi o conceito encontrado para caracterizar esta primeira crítica.


Crítica 2: “A relva é verde mas podia ser azul.” (Júnior)

Para o grupo o Júnior avançou com uma possibilidade teórica que faz com que a frase “A relva é verde” não seja uma verdade absoluta pois “é possível que um dia a relva seja, ou tenha sido, azul.”
Possibilidade foi o conceito escolhido para esta crítica.


Crítica 3: “Há relva branca.” (Leo)
Com esta crítica a Leo pretendeu criticar através de um contra-exemplo o pressuposto da verdade da Alexandra de que (toda) a relva é verde.
A esta crítica o grupo deu o nome de Factual (é um facto que há relva branca).



Verdade 2: “Eu tenho um pai e uma mãe.” (Carolina)

Crítica 1: “Ela pode ser adoptada e ter dois pais e duas mães, biológicos e adoptivos.” (Bábá)


Crítica 2: “Ela pode ter dois pais gays, e aí tem dois pais.”

Seguiu-se uma pequena conversa em torno da questão de saber o que é uma prova?
A palavra da Carolina de que não era adoptada era uma prova de que não é, de facto, adoptada?
“Não, pois alguns pais só decidem contar aos filhos que são adoptados muito tarde.” Certificámo-nos de que esta “dúvida epistemológica” não era suficiente para abalar a certeza afectiva da Carolina acerca dos seus pais e continuamos.

nota 1: Este “fair-play” filosófico das crianças e dos jovens é uma característica essencial para se fazer filosofia (algo pouco comum nos adultos) e que nos permite discutir sem nenhuma espécie de censura qualquer assunto nestas sessões de Jovens Filósofos que são verdadeiros exercícios de liberdade de pensamento.

nota 2: A nota anterior serviu para atenuar um pouco o choque dos leitores mais sensíveis perante o que vem a seguir.

Crítica 3: “Ela pode viver uma mentira. Os pais dela podem ter morrido agora mesmo e ela não sabe. Se isso for verdade ela não tem mãe nem pai.”

Debatemos um pouco a pertinência do conceito de mentira nesta situação. “Acho que nesse caso ela não estará a viver uma mentira pois ninguém lhe mentiu. Aí estaria a viver uma omissão.”

Crítica 4: “Os pais não são propriedade dela. Por isso ela não pode dizer eu tenho.” (Ana Margarida)


Conversa final com os alunos

- O que é o óbvio?
"As verdades que no início nos pareciam “óbvias”, depois de críticadas pelos outros já não pareciam tão óbvias."
“O óbvio é o que nos parece verdadeiro, não é o verdadeiro.” (Margarida)

- O que é a filosofia?
“A filosofia é irritante e leva-nos a situações desconfortáveis… e por isso é que é boa.” (Carolina)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

JOVENS FILÓSOFOS 2010__Aula 2 e 3


Sessão de Filosofia com Crianças (12_14 anos) na Universidade Júnior do Porto (2010)




Duração: 3 horas




Exercício : “Pensar fora do quadrado”


1) Os alunos pensam numa frase que acreditem ser “absolutamente verdadeira”, i.e., que consideram que não pode ser refutada;

2) Lêem-se todas as frases;

3) Escolha de uma frase que a maioria (ao contrário do autor) considera poder ser refutada;

4) Debate;

5) Escolha de uma frase que a maioria considera ser irrefutável;

6) Tentativa de refutação por parte de todos os alunos.



Objectivos Gerais

- Elasticizar conceitos e crenças.

-Alargar pontos de vista.

- Aprender com ou outro (criticar, ser criticado, construir a partir das críticas).

Apresentação do Exercício

"Pensar o Impensável"

- Uma forma de o pensamento se transcender a si próprio procurando ir além dos significados comuns (e tantas vezes rígidos) associados aos conceitos que utilizamos.

- Uma forma de permitir aos alunos construírem e abrirem à crítica os seus próprios sistemas teóricos alternativos em relação aos mais diversos conceitos (verdade, existência, liberdade, amor, etc.)

- Fazer ver aos alunos que o mundo (teórico e empírico é passível de diversas interpretações racionais e coerentes.


Aula 2 – 29 de Junho (Turmas: 1A e 1 B - 1ª semana)



Verdade 1 – “A água é indispensável para a vida do ser humano.” (João)



Crítica 1 – “Pode haver um líquido qualquer (Zumol, por exemplo) noutro planeta ainda não descoberto que possa substituir a água, por isso a água pode ser dispensável sem o sabermos.” (Frederico)



Crítica 2 – “No futuro a tecnologia pode inventar um líquido que substitua a água.” (Rolando)



Observação: Concluímos que a Verdade 1 do João dependia do tempo presente, ou da actualidade, em que a água é efectivamente indispensável para os seres humanos. Já a crítica do Frederico mudou de plano (saiu do "quadrado" do João – a actualidade) e avançou com uma hipótese (um contrafactual, ou mundo-possível). A sua crítica está no plano do virtual, segundo alguns alunos.

Já o Rolando previu uma inovação tecnológica futura.

Segundo o João estas críticas fizeram-no ver que a sua frase apenas é verdadeira se se referir ao estado actual dos nossos conhecimentos e tecnologia.

Conceitos Abordados: Presente/ Futuro; Actual/Virtual



Verdade 2 – “A terra é um planeta redondo.” (Ana Sofia)


Crítica 1 – “A terra não é redonda mas achatada nos pólos.” (Mónica)


Observação: Esta crítica da Mónica (conhecida pela própria Ana Sofia) fez-nos ver que a frase apresentada apenas é verdadeira no plano do Parecer (“pelas imagens que vi da terra ela parece redonda”, justificou depois a Ana Sofia), mas não no plano de Ser (“na realidade ela não é redonda”).

Conceitos Abordados: Parecer/Ser



Aula 3 - 30 de Junho




Verdade 1 – “As vacas são brancas e pretas” (Diogo)


Crítica 1 – “Nem todas as vacas são brancas e pretas” (Maria)


“Eu só conheço vacas brancas e pretas.” (Diogo)

“O que estás a dizer é só que as vacas brancas e pretas (as que tu conheces) são brancas e pretas. Não nos estás a dizer nada de novo.” (Maria)


“Mas mesmo as vacas brancas e pretas não são todas brancas e pretas. Basta terem uma pintinha castanha para não serem SÓ brancas e pretas. Se fosse verdade que TODAS as vacas eram brancas e pretas, que nenhuma tinha pintinhas castanhas nem nada, então aí o Diogo estaria a dizer-nos algo de novo.” (Frederico)

nota: A crítica do Frederico revelou uma boa capacidade de pensar hipoteticamente. Pensar num "mundo-possível" e deduzir as consequências dessa possíbilidade para um quakquer argumento filosófico ("Se fosse verdade que... então aí o Diogo estaria a dizer-nos algo de novo."), o que é uma importante competência filosófica.