segunda-feira, 26 de setembro de 2011

86º CAFÉ FILOSÓFICO - O QUE É A FILOSOFIA?


O que é a Filosofia?

Foram muitas as vezes que esta enorme pergunta surgiu ao longo destes quase três anos de Cafés Filosóficos. Hoje foi, porém, a primeira vez que a confrontamos de uma forma explícita e nos lançámos numa reflexão conjunta para lhe tentar responder.


A razão porque só agora propusemos esta pergunta para um Café Filosófico está de alguma forma ligada à metodologia que hoje utilizamos para lhe tentar responder. A razão é que, ao contrário do que normalmente se pensa, não é necessário começar uma investigação filosófica pela definição dos conceitos em jogo. Esta definição é, sem dúvida, útil e a partir de certo ponto absolutamente essencial. Porém essa definição pode surgir a meio ou no fim da investigação filosófica após um período inicial no diálogo de troca de ideias, interpretações e significados e à medida que os argumentos e os pedidos de clarificação e síntese vão surgindo naturalmente no debate.


Da mesma forma também nós nos Cafés Filosóficos não precisámos de definir o que era a "filosofia" para começarmos a filosofar. Acredito até que essa ânsia por fixar o significado dos termos (no contexto de um Diálogo Filosófico) é ao mesmo tempo inglória e limitadora das possibilidades que um Diálogo Filosófico nos dá.
É inglória pois lança-nos numa busca pelos fundamentos de algo quando ainda nem sequer conhecemos muito bem o terreno em que nos movemos, uma vez que ainda não experimentámos os diversos conceitos e problemas que orbitam em torno do conceito a definir. É limitadora pois impede à partida a exploração dialógica que a ambiguidade e vagueza dos conceitos filosóficos nos permite.


Nesta sessão seguimos uma metodologia conhecida por "Perguntar à Pergunta." - a mesma utilizada por Walter Kohan neste Café Filosófico.
O que este método nos sugere é que em vez de procurarmos directamente a resposta a uma pergunta (a definição de filosofia, neste caso)  iniciemos uma busca por outras perguntas que de alguma forma nos iluminassem alguns dos pressupostos por trás da pergunta inicial.


As notas que se seguem são, como habitualmente, da Chantal Guilhonato e as fotografia são do José Rui M. Correia.



"Escavar buracos na areia. Gosto disso, desde pequena.
Porque escavas se a maré está a subir?
E se a maré resolvesse não subir...

Contrariar a direcção do pensamento comum. Este foi o ponto de partida do último Café Filosófico: procurar os pressupostos filosóficos da pergunta «O que é a Filosofia?» e tentar perceber de que forma eles nos poderiam ajudar a responder à pergunta inicial.

O Fernando avançou com a primeira questão:
A filosofia é necessária?

A Salomé rejeitou a questão do Fernando propondo em sua vez a pergunta:
O que é o conhecimento? A razão apresentada pela Salomé para a antecedência desta pergunta em relação à do Fernando foi que apenas posso sentir necessidade daquilo que conheço.

Outros participantes perseguiram esta pista e a interrogação da Salomé evoluiu para:
Qual a distinção entre conhecimento e filosofia?

O Nuno considerou que as questões anteriores estavam utilizar como um dos seus termos o conceito de "filosofia" que era aquele que se estava a tentar definir. Desta forma estas perguntas perdiam a sua pertinência pois não seriam capazes de nos ajudar na definição de "filosofia".

O Alexandre perguntou então se é necessário definir algo para o conhecer?

Para o Zé Rui, a pista de reflexão assentaria sobre a questão:
Porque surgiu a filosofia? (entendido neste caso como «motivo». A ambiguidade do conceito "motivo" foi tornada evidente com as diferentes interpretações dadas pela Salomé que entende por "motivo" uma «vontade Universal» e para o Jorge que entende por motivo «causas culturais».

A pergunta proposta pelo Jorge estava certamente ligada à sua última intervenção pois surgiu depois de nos ter contado um episódio em que conheceu um "feiticeiro" tribal que considerava um filósofo, "mais filósofo que muitos filósofos ocidentais":
Só pode ser filósofo quem sabe o que é a filosofia? (Jorge)


Para o Nuno, a pergunta central seria antes
O que é o Homem?
Esta questão foi rejeitada pelo Tiago por considerar utópico tentar respondê-la para se chegar à de finição de filosofia, e foi considerada demasiado abstracta pela Salomé).

Por fim, o Tiago propôs-nos a pergunta:
Qual o objecto de estudo da filosofia? A Joana numa tentativa de clarificar a pergunta do Tiago fez com que surgisse uma outra pergunta que poderia interesar à nossa investigação:
Qual o objectivo da filosofia?

Ficámos então com uma lista de perguntas que não só nos iluminaram o caminho para as respostas à pergunta inicial, "O que é a filosofia?", como nos deram outras tantas pistas de investigação para outras sessões de Café Filosófico.

O que é a filosofia?
A filosofia é necessária?
O que é o conhecimento?
Qual a distinção entre conhecimento e filosofia?5 - É necessário definir algo para o conhecer?
Só pode ser filósofo quem sabe o que é a filosofia?
O que é o homem?
Qual o objecto da filosofia?
Qual o objectivo da filosofia?


No final da sessão o Tomás pediu-nos a nossa definição de Filosofia, agora informada de toda a discussão em torno das perguntas que foram surgindo:

•A filosofia é um sistema de reflexão sobre as relações do Homem com o Universo (António)

•A filosofia procura dar respostas a realidades não palpáveis (Salomé)

•A filosofia esclarece a relação entre o Homem e o Objecto (Fernando)

•A filosofia é uma prática pessoal (Chantal)

•A filosofia tenta apaziguar a complexidade (Tiago)

•A filosofia é um questionamento crítico que visa o auto-conhecimento (…) (Nuno)

•A filosofia procura discutir com método perguntas através de outras perguntas (Joana)

•A filosofia é uma atitude perante o conhecimento e os Homens

•A filosofia é um sistema de compreensão de ideias

•A filosofia é uma desconstrução do pensamento (Luís Baptista)

•O objectivo da filosofia é chegar à ausência dela. Chegar ao dia em que ninguém vai filosofar (Zé Tapum).


E se a maré resolvesse não subir..."

Chantal


3 comentários:

EDUARDO SEQUEIRA disse...

Para mim a Filosofia é um auto - Altercação que começa como tal e continua como diálogo na nossa relação com o mundo sensível como atributo primeiro da Razão; nasceu com ela e com ela se extinguirá, primeiro em cada corpo e depois em toda a espécie, se extinta.

Anónimo disse...

A FILOSOFIA É A CIÊNCIA QUE DA AO SER O DESENVOLVIMENTO E O CONTROLE DA RETÓRICA PARA O DOMÍNIO DA SOCIEDADE EM QUE ESTÁ ENSERIDO E, NÃO SÓ PARA DAR EXPLICAÇÕES FAZER QUESTIONAMENTO, MAS TAMBÉM PARA EXTORQUIR TODA SOCIEDADE, INDEPENDENTEMENTE DE SER DESPROVIDO DE CONHECIMENTO OU NÃO.
COMO EXEMPLO TEMOS OS POLÍTICOS E A POLITICAGEM ECONÔMICA DESENVOLVIDA NO MUNDO INTEIRO.

EDUARDO SEQUEIRA disse...

Desconfio que o leitor apressado eestará a confundir os dois conceitos. A Filosofia NÃO é uma Ciência, apesar de ter estado na sua génese e a Retórica, " excrecência " lógica na divulgação e exposições reflexivas, não é, de todo, o alfa e o ómega do mundo da reflexão apesar de dela fazer uso instrumental, carácter ess no manejamento dos conceitos e das suas relações tornando - os inteligíveis,processo esse a que os políticos também são obrigados, sob o risco de inconsequência.

Essa é uma das relações, não metodológica, que se poderá estabelecer entre o mundo político e o mundo filosófico. A capacidade de " extorquir " não excita este; quando ao outro...
De qualquer maneira, o seu ao seu dono..., certo?