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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

54º CAFÉ FILOSÓFICO_FILOSOFIA E FRANCESINHAS





O prazer é importante?

O desafio foi-me lançado pelo meu amigo Amândio Fontoura, professor de Filosofia e Psicologia em Lisboa: aproveitar a passagem pelo Porto de uma sua turma em visita de estudo e improvisar um Café Filosófico. Desafio aceite.
Antes do jantar juntou-se o grupo que foi apanhado de surpresa. deu-se início à sessão, pediram-se sugestões de temas para aprofundarmos filosoficamente: "prazer", "política", "nada", "expressão" e "liberdade" foram os conceitos propostos. Ganhou o "prazer".
Pediram-se perguntas que problematizassem o conceito de "prazer".
"O prazer é importante?" foi a pergunta escolhida para dar início a mais uma sessão de debate de ideias.
 Entre os vários argumentos gizados pelos alunos dois foram os que reuniram maior consenso:

- "Sim, pois o prazer impele-nos a fazer coisas boas para nós e a melhorando-nos."* (este argumento foi nomeado pelos alunos de "argumento subjectivista")
- "Sim, pois o prazer é o motor que faz a sociedade andar para a frente." (nomeado de "argumento comunitarista")

A seguir à sessão fomos todos comer francesinhas. Uma noite em grande, portanto.

* Mais uma prova que "pessoas normais" chegam às mesmas intuições filosóficas que os Grandes Filósofos: Aristóteles defendia que a natureza do prazer era a de aperfeiçoar as actividades que realizavamos prazerosamente, sendo os prazeres da mente os mais elevados. Cultivar estes prazeres é uma forma de melhorarmos a nossa compreensão das coisas, estando ainda a compreensão associada à felicidade.
É desta forma que Aristóteles associa o prazer à felicidade.
(ver Filosofia Antiga, de Anthony Kenny. Ed. Gradiva)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Jovens Filósofos 2010 "Podemos viver sem regras?"



Sessão de Filosofia com Crianças (12_14 anos) na Universidade Júnior do Porto (2010)


Aula 14 – 15 de Julho (Turma 1C – 3ª semana)


Duração: 6 horas


Exercícios : “Pensar o impensável”, "Pensar Criticamente" (manhã), "Debate Filosófico" (tarde)



Exercício 1 - Pensar o impensável (estrutura do exercício)

1) Os alunos pensam numa frase que acreditem ser “absolutamente verdadeira" (irrefutável, portanto).

2) Lêem-se todas as frases.

3) Escolha de uma frase que a maioria considera poder ser refutada.

4) Debate (análise e avaliação dos argumentos e sua categorização).

5) Escolha de uma frase que a maioria considera ser irrefutável.

6) Debate (análise e avaliação dos argumentos e sua categorização).


Objectivos

1 - Elasticizar conceitos e crenças.

2 - Alargar pontos de vista.

3 - Aprender com ou outro (criticar, ser criticado, construir a partir das críticas).

4 - Aprender a sintetizar e classificar argumentos.



Verdade 1 –"Deus morreu." (Jóni)

Crítica 1 – “Ninguém tem provas disso.” (Inês)
[A turma classificou esta crítica de “Provismo”, pois apela à inexistência de provas.]*

Crítica 2 – “Deus ou é eterno ou nunca existiu, logo não pode morrer ou ter morrido." (Paulo Ricardo)
[Esta crítica foi classificada de “Idealismo” uma vez que “não critica através de provas e factos ou falta deles, mas através de ideias.]

Crítica 3 – “Deus é tudo. Se ele morreu nós também estaríamos mortos.” (Mathew)
[Este foi considerado pela turma um argumento lógico e classificado sob o nome de “logismo”.]



Exercício 2 – Debate Filosófico


Objectivos

1 - Praticar num debate de ideias real as competências de raciocínio aprendidas de manhã.
2 - Aprender a ouvir os outros.

3 - Aprender a esperar pela sua vez para falar (gerir a impulsividade).

4 - Compreender a importância de separar o essencial do acessório num debate de ideias.

5 - Construir ideias novas a partir de ideias dos outros.

6 - Problematizar as ideias e argumentos dos outros.



Pergunta Inicial: “Podemos viver sem regras?”(Paulo Ricardo)
- “Sim, a tecnologia permitir-nos-á um dia viver sem regras sociais.” (Pedro Xavier)

- “Mas isso é apenas trocar umas regras por outras.”


- “Sim, mesmo que a tecnologia permita um dia acabar com as regras sociais vamos sempre ter regras mesmo que sejam regras impostas por nós próprios a nós próprios.”


- “Os animais seguem regras?” (Paulo)

- “Não, porque os animais não sabem o que são regras.” (Pedro)

- “Mas mesmo sem saber eles seguem regras. Por exemplo, os gatos fazem xixi na areia.” (Joana)

- “Mas essas são as nossas regras, não as regras dos gatos.” (Teresa)

- “Como é que sabes que os animais não têm regras?” (Gisela)

- “Porque eles não têm sentimentos, apenas querem sobreviver.” (Teresa)

- “Não concordo, os animais têm sentimentos, por isso seguem regras.” (Gisela)

- “Não percebo o que têm a haver os sentimentos com o seguir regras.” (Pedro)

“Quem deve fazer as regras?” (Paulo)

- “Cada um deve fazer as suas próprias regras.”

- “As leis devem ser feitas e votadas por todos.”

- “As leis devem ser feitas e votadas por todos, mas cada um deve seguir as que sentir que deve seguir.” **


- “Mas isso seria uma anarquia…” ***


Notas

* este exercício de nomear os argumentos que vão surgindo é uma excelente (e divertida) forma de obrigar os alunos a “apanharem” o essencial de um determinado argumento num só conceito. Desta forma estamos a trabalhar competências cognitivas tão importantes quanto a conceptualização, a classificação, a categorização, a síntese e a imaginação.

** ver objectivo 5

*** ver objectivo 6

domingo, 18 de julho de 2010

Jovens Filósofos 2010 "Existe matéria no Universo?" Bernardismo vs. Baptistismo



Aula 12 – 13 de Julho (Turma 1A – 3ª semana)


“Pensar o impensável”

No início de cada sessão basta esta expressão escrita “Pensar o impensável” para suscitar expressões de incómodo, desagrado e incompreensão por parte dos alunos. Excelente começo, portanto.

“Pensar o impensável não é possível." Dizem alguns.

”Não podemos pensar o que não se pode pensar.” Dizem outros.

“É uma contradição pensar o que não é possível pensar.” Idem aspas.


É quando lhes perguntamos se é impensável pensar que a expressão “Pensar o impensável” faz sentido que começa a fazer-se luz nas suas cabeças. Alguns alunos procuram então perceber o significado dessa misteriosa expressão, e daí surge naturalmente a pergunta “O que é pensar o impensável?”


“É pensar o que ainda não pensámos”, diz-nos o Bernardo. “Pensar o impensável é tentar explicar o impossível.” “E para que serve explicar o impossível”, perguntamos. “Serve para percebermos por que motivo é impossível.”

“Eu não concordo”, diz o Orlando”, para mim pensar o impensável é pensar em coisas que ninguém se interessa porque ninguém pensa a sério nelas.”

Apesar das insistências para darmos a nossa própria interpretação desta expressão preferimos não matar a sua curiosidade e deixar no ar outros possíveis significados.


Convidámos então os alunos a formularem uma frase que considerassem uma “verdade absoluta”, ou seja uma frase que fosse impensável considerar falsa. Depois pedimos a todos que “pensassem o impensável” procurando refutar cada uma das verdades com que nos íamos defrontando.


“Os humanos respiram”, foi a primeira verdade absoluta da sessão, e foi avançada pela Helena.


Depois de uns breves minutos iniciais de reflexão surgiu a primeira crítica pela mão da Lília: “Quando morremos deixamos de respirar mas continuamos humanos. Por isso há humanos que não respiram: os mortos.”


Como costuma acontecer as outras críticas vieram em catadupa. “Esta verdade é incompleta”, arriscou o Guilherme, “não diz o que é que respiramos. Se água, dióxido de carbono, areia ou oxigénio. Por isso não pode ser uma verdade absoluta”.

“Nem só os humanos respiram”, disse-nos o Orlando adivinhando um possível pressuposto da frase da Helena, de que “apenas os humanos respiram.” Este pressuposto foi imediatamente rejeitado pela Helena, pelo que abandonámos a crítica do Orlando.

O Bernardo descobriu um conceito pouco preciso na frase da Helena. “O termo correcto é ventilar, por isso não é verdade que respiramos.” E, por fim, o João avançou esta bem original crítica à “verdade absoluta”da Helena: “Debaixo de água estamos vivos (ao contrário da Lília o João não considerava os mortos seres humanos) e não respiramos. Por isso os humanos nem sempre respiram.”


Como já escrevi noutro post este exercício é, não só, uma boa forma de acicatar o espírito crítico e criativo dos alunos fazendo-os problematizar e aprofundar os vários significados de diversos conceitos (a única forma de conhecermos o alcance dos conceitos que usamos), mas também de os fazer ver que ligados a esses diferentes significados encontram-se os diferentes pressupostos das diversas asserções e argumentos com que nos confrontamos. Depende dos pressupostos que encontrarmos (“aquilo que eu queria mesmo dizer”, como por vezes os alunos referem) a avaliação final de cada uma das verdades absolutas avançadas.


Depois de um breve intervalo retomámos o trabalho de criticar as diversas verdades dos nossos colegas. Aqui elevámos o grau de dificuldade do exercício e pedimos aos alunos que elegessem aquela frase que considerassem mais difícil de ser refutada.
A honra recaiu sobre a frase do Baptista:

“Existe matéria no universo.”

Todos reconhecemos a dificuldade desta tarefa (criticar esta frase parecia-nos a todos verdadeiramente impensável) mas esta dificuldade não nos impediu de tentar. Lançámo-nos então a tentar analisar e problematizar os diferentes conceitos utilizados: Existência, Matéria e Universo. Eram estas as “portas de entrada” para uma possível crítica à verdade do Baptista.

Começámos bem o nosso trabalho com um dos filósofos a gizar um excelente argumento para refutar a verdade do Baptista (o baptistismo).


“Tudo o que há é matéria. Logo não EXISTE matéria no universo, o universo É matéria.”


Este argumento surpreendeu-nos a todos pela sua originalidade e arrojo, mas o Baptista não se deixou ficar e contra-argumentou da seguinte forma.

“Nem tudo no universo é matéria, também há espaços vazios.”
Mas a originalidade destes Jovens Filósofos que procuravam pelas suas próprias cabeças refazer os passos de pensadores como Tales, Anaxímenes ou Anaximandro não se ficou por aqui. Para o Bernardo “no Universo não existe apenas matéria e espaço vazio, mas também emoções, ideias, sentimentos.” O Bernardo chamou a estes elementos “imatéria”. Outros alunos avançaram com outras formas de “imatéria” como a força da gravidade e a electricidade.

A partir desta ideia radical alguns alunos concluiram que na verdade tudo no universo é “imatéria” pois o elemento mais básicos da matéria é a electricidade, que “não se pode tocar, por isso é imaterial”.

Por esta altura concluimos que a turma se dividia em duas escolas filosóficas antagónicas: os Baptististas que defendiam o “materialismo” e os Bernardistas que defendiam o “imaterialismo”.


Seguiu-se um pequeno debate para sabermos se por “Universo” devemos considerar as “coisas tal como nos aparecem” (estrelas, cadeiras, pedras, etc.) ou as coisas tal como são realmente” (electricidade e espaço vazio). O grupo chegou à conclusão que se por “universo” entendermos a primeira opção seremos Baptististas, i.e., “materialistas”. Por outro lado se seguirmos a segunda opção seremos Bernardistas, ou seja, “imaterialistas”.



Nota Final
Não sei se um físico iria ficar muito satisfeito com as conclusões a que chegámos neste debate mas eu, enquanto filósofo, fiquei. Estes alunos durante uma manhã debateram-se com os mesmos problemas dos primeiros filósofos pré-socráticos e de muitos outros pensadores depois deles ("o que é o Universo?", "de que é feito?", "o que é a matéria?", "quais os seus componentes últimos?", etc.) e, a meu ver, estiveram à altura do desafio.
Grandes Filósofos estes Jovens Filósofos. Parabéns!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Jovens Filósofos 2010 "Quanto tempo temos para fazer filosofia?"


Sessão de Filosofia com Crianças (12_14 anos) na Universidade Júnior do Porto (2010)

Duração: 3 horas


Exercício : “Pensar fora do quadrado” ou “Pensar o impensável”


1) Os alunos pensam numa frase que acreditem ser “absolutamente verdadeira”;

2) Lêem-se todas as frases;

3) Escolha de uma frase que a maioria considera poder ser refutada;

4) Debate;

5) Escolha de uma frase que a maioria considera ser irrefutável;

6) Tentativa de refutação por parte de todos os alunos.



Objectivos

Elasticizar conceitos e crenças;

Alargar pontos de vista;

Aprender com ou outro (criticar, ser criticado, construir a partir das críticas)



Aula 9 – 8 de Julho (Turma 1C – 2ª semana)



Nesta sessão tivemos a companhia de algumas jornalistas do Jornal de Notícias que vieram à Faculdade de Ciências cobrir esta e outras actividades da Universidade Júnior.


http://jn.sapo.pt/multimedia/video.aspx?content_id=1613726


A sessão começou com uma conversa em torno da questão “O que é pensar o impensável?”



“Pensar o difícil”, disse o João. Já para o Pedro trata-se de, “simplesmente, pensar.”

O Pedro falou-nos em “imaginar” e a Sara em “Pensar o difícil que se torna fácil quando pensamos sobre ele.” Finalmente para o Luís pensar o impensável é “pensar o que a sociedade não costuma pensar.”



A primeira “Verdade Absoluta” que resolvemos investigar foi a do Luís: “A parede é amarela.”

A Sara procurou falsificar (refutar) directamente a “verdade” do Luís dizendo que a parede não era amarela mas bege. Já a Maria Luísa apresentou-nos uma “falsificação da verdade” do Luís de um outro tipo: “A parede não é bege, a tinta é que é.”

À falsificação da Sara o grupo chamou de “falsificação pela cor” e à da Mª Luísa “falsificação pelo material”.

A refutação do Francisco foi inteiramente diferente. O seu problema com a frase do Luís é que “é pouco específica, pois não nos diz de que parede fala, se a desta sala, se a da sua casa, se a da minha casa...”.
Quem avançou a crítica mais arrojada da manhã foi o Bernardo: “Tudo no mundo é uma grande parede. O chão, o tecto, as montanhas, até o ar é uma parede, e o Luís não nos diz que parede é essa que é amarela.” Este seu insight filosófico levou-o ainda a caracterizar a frase do Luís como “demasiado específica.” Deixámos em aberto a pertinência desta escolha de conceitos.

Falou-se ainda da possibilidade de "a parede não ser bege para os daltónicos, para os animais ou para extraterrestres."

No final da sessão conversamos um pouco sobre a aventura do filosofar.
Curiosos por saber mais sobre o que era isto da Filosofia (lembro que os alunos da Oficina Jovens Filósofos frequentam o ensino básico, como tal nunca tiveram a disciplina de filosofia) propus-lhes um dilema:
“Se quiserem uma resposta a uma pergunta filosófica devem perguntar a um filósofo profissional que pensou nessa pergunta durante 30 anos sabendo que ele lhes dará uma resposta muito satisfatória, mas não perfeita ou, por outro lado, deverão procurar essa resposta por vocês mesmo sabendo que obterão uma resposta medíocre?”

Como era de esperar os alunos escolheram unanimemente a segunda opção mas por razões diferentes:

“Devo ser eu a procurar pois a resposta do professor podia ser demasiado complexa para eu perceber.” (Mª Luísa)

“ Devo pensar eu na resposta pois assim ao caminhar para a resposta vou encontrando muitas outras coisas que se ouvisse logo a resposta final do professor não encontraria.” (Luís)

Esta ideia levou o Luís a avançar com a seguinte metáfora acerca de filosofia e viagens:

“Pensar por nós é como ir até Hong Kong por terra, conhecendo imensos sítios e pessoas novas. Perguntar aos outros é ir logo de avião, conhecer Hong Kong e nada mais. Se tivermos tempo devemos ir por terra.”

“Quanto tempo temos para fazer filosofia?”, perguntei-lhe.

“A vida toda!” respondeu.

Jovens Filósofos 2010 "A morte é uma certeza?"


Sessão de Filosofia com Crianças (12_14 anos) na Universidade Júnior do Porto (2010)

Duração: 3 horas

Exercício : “Pensar fora do quadrado” ou “Pensar o impensável”


1) Os alunos pensam numa frase que acreditem ser “absolutamente verdadeira”;

2) Lêem-se todas as frases;

3) Escolha de uma frase que a maioria considera poder ser refutada;

4) Debate;

5) Escolha de uma frase que a maioria considera ser irrefutável;

6) Debate.


Objectivos

Elasticizar conceitos e crenças;

Alargar pontos de vista;

Aprender com ou outro (criticar, ser criticado, construir a partir das críticas).

Clarificar o pensamento.



Aula 8 – 7 de Julho (Turma 1B – 2ª semana)


Verdade 1 – “Não consigo escolher uma verdade absoluta.” (Daniela)

Crítica 1: “Se pensasses mais um pouco conseguias.” (Inês)

Crítica 2: “Isso é uma verdade subjectiva.” (João Pedro)

Crítica 3: “Ao escolher essa frase já estás a escolher uma verdade.” (Diogo)



Verdade 2 – “A guerra é algo mau.” (Tiago)

Crítica 1: “A guerra pode ser algo bom quando une os povos em torno de uma causa comum.” (João Pedro)

Crítica 2: “A guerra é algo bom para quem ganha.” (Diogo)

Crítica 3: “A guerra pode ser algo bom pois muitas vezes define o progresso tecnológico.” (Duarte)

Crítica 4: “A guerra é algo bom para os países neutros que lucram com ela.”



Verdade 3 – “A morte é a única certeza que temos na vida.” (Filipe)



Crítica 1: “A morte não é a única certeza que temos. Também temos a certeza que o sol brilha, por exemplo.” (Tiago)

Nota: sem se aperceber este Jovem Filósofo usou uma técnica filosófica bastante comum e eficaz: através de um simples contra-exemplo refutou uma generalização abusiva. Esta crítica do Tiago levou o Filipe a clarificar a sua ideia reformulando a sua frase:

Verdade 3.1 - “A morte é uma certeza.” (Filipe)

Era esta a asserção que o grupo agora devia procurar refutar.

Crítica 2: “As pessoas que morrem continuam vivas nas cabeças dos seus amigos e familiares.” (Daniela)

Nota: Esta crítica da Daniela obrigou o Filipe a estabelecer uma distinção entre dois conceitos distintos de morte (“morte física” e “morte psicológica”) e a indicar a qual destes conceitos se referia.
Fez-se notar ao grupo que as críticas dos colegas à asserção do Filipe obrigaram-no a explicitar os pressupostos do seu pensamento, ou seja aquilo que ele “realmente queria dizer”.

Verdade 3.2. – “A morte física é uma certeza.” (Filipe)


Crítica 3: “No futuro, com a tecnologia, a morte física pode deixar de ser uma certeza ao encontrarem remédios para a vida eterna.”


Nota Final: Ao desafiarem criticamente a “verdade absoluta” do Filipe os alunos perceberam que se tratava de uma asserção bastante frágil, pelo menos na sua formulação inicial. Esta investigação em grupo permitiu-nos encontrar os pressupostos da asserção do Filipe passando do espectacular lugar-comum que nos diz que “A morte é a única certeza que temos na vida” para a menos espectacular mas bastante mais sólida asserção “Hoje a morte física é uma certeza” que alguns alunos sugeriram no final mas que, por falta de tempo, não pudemos aprofundar.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Jovens Filósofos - Aula 21

Trabalho a partir do texto: “O Mar e o Caracol” de António Torrado

Estrutura da Aula

1) Resumo
Pediu-se aos alunos que lessem o texto – leitura partilhada – e o resumissem numa frase.

João – “Cada um tem de se contentar com aquilo que tem.”

Luis – “Algumas pessoas podem ter ideias diferentes umas das outras.”

Paulo – “O que sonhamos às vezes acontece na realidade.”

Zé Pedro – “Não devemos parar de seguir os nossos sonhos só porque as pessoas não nos ajudam a conseguí-lo.”

Objectivo deste exercício - Interpretação do texto, síntese das ideias principais.

2) Análise
De seguida é pedido a cada aluno que escolha uma frase com a qual não concorda e que diga por que não concorda com ela.

exemplo:

Zé Pedro – “Não concordo com a frase do João pois a história não fala sobre “quem tem o quê.”

Objectivo deste exercício – Fazer com que os alunos identifiquem em concreto o que está mal nos argumentos dos outros, por oposição à tendência normal de dizer que “não concordo porque não gosto.”

3) Argumentação
É dada a palavra ao aluno cuja frase foi criticada que tem a oportunidade de defender a sua ideia(com argumentos e excertos do texto), ou então de aceitar a crítica e mudar a sua frase.

Objectivo deste exercício – Confrontar os alunos com críticas às suas ideias fazendo-os ver que é, exactamente, uma crítica às suas ideias e não a eles próprios.
Ao poderem mudar as suas frases os alunos sentem que podem ganhar alguma distância em relação às suas opiniões anteriores que não estão “escritas na pedra”.
Procura anular-se desta forma a tendência infantil (e que muitas vezes se mantém pela vida fora) de defender a todo o custo tudo aquilo que dizemos, apenas porque fomos nós que o dissemos.

4) Conceptualização
Identificação em grupo das ideias principais de cada frase e dos conceitos por detrás dessas mesmas frases.

João – “Cada um tem de de se contentar com aquilo que tem.”Conformismo

Luis – “Algumas pessoas podem ter ideias diferentes umas das outras.”Coragem e criatividade.

Paulo – “O que sonhamos às vezes acontece na realidade.” - Fantasia

Zé Pedro – “Não devemos parar de seguir os nossos sonhos só porque as pessoas não nos ajudam a conseguí-lo.”Dependência

Objectivo deste exercício – Incentivar os alunos a conceptualizar os valores pressupostos atrás dos vários argumentos. Fazê-los subir um patamar na forma de abordar a realidade: do particular para o universal. A importância deste tipo de exercícios é enorme, uma vez que este movimento de intelectual de conceptualização é a própria essência do pensamento filosófico.

5) Síntese e confrontação
Regresso ao texto e ligação ao trabalho efectuado nas aulas anteriores através da pergunta:
“O caracol da história é dependente ou independente?”

A resposta a que chegaram por consenso foi:
“O caracol era dependente pois precisava de pedir ajuda aos outros para concretizar os seus objectivos.”

[Nota: Deixou-se uma questão em aberto para os alunos pensarem: em casa:
“Toda a gente que precisa de ajuda para atingir os seus objectivos é dependente?”]


Principais competências exercitadas nesta sessão
- Interpretação e resumo (encontrar as ideias principais de um texto);
- Conceptualização (encontrar os conceitos presentes nos seus argumentos)
- Argumentação (confrontar as suas ideias com as ideias dos outros).

Na próxima aula (Diálogo Socrático) procuraremos uma definição consensual para uma das questões saidas desta sessão: “O que é a independência?”