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terça-feira, 27 de março de 2012

Adeus CLP!






No Domingo passado despedimo-nos das paredes do Clube Literário do Porto agora despidas dos quadros do José Rodrigues que nos acompanharam durante estes três anos de Café Filosófico todos os últimos domingos de cada mês. 
Despedi-mo-nos com uma conversa em torno das virtudes moderada pelo Nuno Paulos Tavares do projecto Enteléquia. 
Falámos de Honestidade, de Autenticidade, de Lealdade, de Alegria e de Verdade. Também falámos de Mentira e ainda bem que o fizemos. Pensar a Mentira como uma virtude parece, no mínimo, um pouco estranho. Mas um Café Filosófico é um evento, no mínimo, um pouco estranho. Pensar um conceito fora do seu trilho habitual era uma atitude de higiene mental recomendada por Nietzsche e é algo que valorizamos muito nestes nossos encontros. Aqui nenhuma ideia é demasiado estranha para ser analisada por todos da forma mais rigorosa que formos capazes.  
Apesar de o momento ser de despedida e, por isso, propício a um tom mais triste não foi o que aconteceu no domingo à tarde. Como estas paredes presenciaram noutras ocasiões sentia-se na sala a Alegria de quem participa de algo raro e de inestimável valor: a discussão educada de ideias.


Deixo uma palavra de agradecimento a todos os colaboradores do Clube Literário do Porto mas em especial à Dra. Eunice Brito a cara e a alma do Clube Literário do Porto, em tudo menos no fecho.
A ela um grande beijinho.  


Deixo-vos com o texto que a Chantal Guilhonato escreveu sobre esta nossa despedida do CLP e com a fotografia do José Rui M. Correia tirada nos últimos momentos do Café Filosófico.
Adeus CLP!

116º Café Filosófico


Despedi-me do CLP assim que entrei. Não tive alternativa. Ele
recebeu-me de caixas abertas e paredes cicatrizadas pelo abandono.
Molduras desenhadas pelo tempo que ficaram agora a descoberto.
Olhei-as e senti-lhes a vergonha. Fiquei quieta.
Em busca de reconforto, subi ao primeiro andar. Encontrei marcas ainda
mais profundas. Fiquei quieta.
Começa o Café Filosófico com uma questão que me interpela: qual a
virtude mais importante?
(Nota: adoptou-se como definição operativa de virtude: «uma qualidade
moral particular»).
Honestidade, Lealdade, Sinceridade, Alegria, Mentira, Lucidez,
Autenticidade, Verdade...
Escolhemos, para primeira reflexão, «Alegria» (proposta pelo Tomás
enquanto participante dado que a sessão foi moderada pelo Nuno
Tavares), definida como «uma atitude positiva acerca do mundo».
Olho as paredes e peço-lhes para ouvir.
Segue-se à Alegria, a Mentira, definida pelo Jorge como sendo «o que
permite ao Homem preservar o seu livre arbítrio».
Olho as paredes e peço-lhes para entender.
Fala-se em virtudes cardeais (Sabedoria/Prudência; Fortaleza;
Moderação e Justiça) e sinto que o Norte se perdeu nalgum dos
embrulhos à porta.
De braço no ar, elege-se a Honestidade como sendo a virtude mais
importante, a que serve de condição para todas as outras.
Olho as paredes e não lhes peço nada. Não tenho coragem.
O António, sentado ao meu lado, recorda então Pessoa «Porra sou lúcido».
As paredes fitam-me e eu fico quieta.
Fecham-se, cedo, as portadas. Antes de sair, parece-me escutar «Qual a
maior virtude? Não deixar paredes morrer»...



Chantal

quarta-feira, 21 de março de 2012

Último Café Filosófico no Clube Literário do Porto

Domingo | 17h00 | Clube Literário do Porto
Este Domingo (25 de março) teremos a última oportunidade de fazer filosofia no espaço que acolheu pela primeira vez o Café Filosófico, o Clube Literário do Porto. O Clube vai encerrar em finais de março e, com muita pena nossa, teremos de encontrar outro espaço que acolha estes nossos encontros filosóficos mensais.
Na sessão deste domingo teremos o prazer de contar com três amigos nossos do projecto Enteléquia – Filosofia Práticaque moderarão o Diálogo Filosófico.
Espero vê-los lá a todos para uma despedida deste espaço tão especial. Nós continuamos a nossa actividade aqui:http://clubefilosoficodoporto.wordpress.com/ 
Para receber divulgação das sessões do Clube Filosófico do Porto inscreva-se na nossa mailing list: clubefilosoficodoporto@gmail.com

domingo, 15 de janeiro de 2012

CAFÉS FILOSÓFICOS EM JANEIRO

Fotografia do 100º Café Filosófico no Clube Literário do Porto


Dia 20 - 104º Café Filosófico, Colégio Sagrado Coração de Maria, Lisboa (14h00)
- este Café Filosófico é exclusivo para alunos e funcionários do CSCML - 
Dia 22 - 105º Café Filosófico, Clube Literário do Porto, Porto (17h00)
Dia 25 - 106º Café Filosófico, Yoga sobre o Porto, Porto (21h30)
Dia 27 – 107º Café Filosófico, FNAC GaiaShopping, V.N.Gaia (21h30)
Outras sessões de Diálogo Filosófico em: 


O que é um Café Filosófico 
Um Café Filosófico é um encontro de filosofia num lugar público (não necessariamente um café) onde todos podem participar numa reflexão filosófica em grupo, independentemente da sua bagagem filosófica.
Os Cafés Filosóficos que organizamos procuram proporcionar uma pequena pausa para pensarconviver ediscutir educadamente temas do universo da filosofia.
Com estes Cafés Filosóficos (e outras sessões de Filosofia Prática) temos a ambição de formar vários grupos informais de investigação filosófica na cidade do Porto e não só. Com isto quero dizer que pretendemos fidelizar um grupo (ou vários grupos) de pessoas não necessariamente com formação filosófica e que, como nós, se interessem por filosofia e tenham vontade dediscutir ideias abertamente e em grupo.
Estes Cafés Filosóficos pretendem mostrar que a filosofia pode ser um exercício descomplexado de reflexão intelectual sem a carga de erudição e obscurantismo, muitas vezes associada à filosofia académica. Se, por um lado, é uma mais valia inestimável conhecer a história da filosofia e o que disseram (e dizem) os grandes filósofos, também é verdade que este conhecimento muitas vezes se substitui ao exercício do pensamento genuíno, que cada um de nós deve fazer por si.
Nos nossos Cafés Filosóficos não descuramos nenhum contributo intelectual vindo da história da filosofia que nos possa ajudar a avaliar os problemas que temos pela frente, mas favorecemos e valorizamos aqueles contributos que surgem espontaneamente no calor da discussão e que nascem do interesse e do esforço intelectual dos participantes. Apenas estes contributos genuínos e espontâneos permitem aqueles insights cognitivos que por vezes surgem num Café Filosófico e que imediatamente são reconhecidos por todos como verdadeiros “momentos filosóficos”É fascinante ver surgir à nossa frente uma ideia ou um argumento fruto de uma mente genuinamente empenhada em pensar de forma autónomacritica.
O que anima estas sessões de filosofia é um enorme gosto pela discussão educada e pelo confronto intelectual entre pessoas reais (o oposto do mero encadeamento de discursos e ideias em 2ª mão). Este sentimento faz-nos sentir únicos, despertos, numa palavra, vivos.


Tomás Magalhães Carneiro - Instituto de Filosofia da UP (Grupo OFFilo)







sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Foto-Revista Café Filosófico 100




Agradeço aos autores, os meus amigos
Chantal GuilhonatoJosé Rui Moreira CorreiaPaulo Jorge Pereira
e a todos os que ao longo destes três anos me acompanharam nesta "escada em espiral" que é a Filosofia. Muitos deles estão nas páginas desta revista, muitos outros estão presentes de outra forma.

Abraços a todos!

Tudo isto é um Grande Café Filosófico!

Escada espiralada que dá acesso ao espaço Yoga sobre o Porto


A ligação entre os vários Cafés Filosóficos nem sempre é óbvia. Isto porque mais que uma ligação temática (ou problemática) é uma ligação feita pelos fios da subjectividade, da intencionalidade, dos interesses e preocupações de cada participante destas sessões. Ora, estes fios são invisíveis para todos os outros que não o sujeito que os tece.

Agora que ultrapassámos os cem Cafés Filosóficos a ideia que fica é que tudo isto é, na verdade, um Grande Café Filosófico que começou em Novembro de 2008 e ao qual regularmente voltamos após alguns períodos de descanso no "quotidiano não filosófico" em que somos obrigados a viver.

Julgo que é disto que este texto da Chantal Guilhonato nos fala e que a escadaria do número 100 da Rua dos Carmelitas (local do Café Filosófico no Yoga sobre o Porto) tão bem ilustra:
o caminho em espiral que temos vindo a percorrer desde Novembro de 2008.


No centésimo Café Filosófico foi servido um Porto de Honra gentilmente oferecido pela Porto Ramos Pinto



Do 102º Café Filosófico para o 100º, por Chantal Guilhonato


O corredor é amplo e pertence a duas casas.
Elas parecem não se importar. Acho até que gostam. Não se resguardam por trás de cortinas, vestindo apenas vidro fino. Na sua nudez, deixam-se observar por quem passa.
O corredor é amplo e conduz a três lanços de escadas que dividem atenções com um experiente elevador.
Subo, a passos, em direcção ao "Pensar o Impensável", o desafio do 102º Café Filosófico. Olho para baixo e esqueço qualquer verdade absoluta. Por pouco tempo. O aroma do chá, que se funde com o do método do pensamento crítico, liberta algumas delas:


"A verdade é uma." (Lara)

Objectividade foi o conceito essencial encontrado sob esta afirmação, prontamente refutada pelo Paulo com a hipótese de que "a verdade é uma interpretação". Para o grupo a refutação do Paulo saía do plano da Objectividade da verdade para o da Subjectividade.


A frase inicial da Lara foi ainda refutada pela Maria de Jesus com a ideia de que "a verdade é um conceito" Após alguma discussão foi votado o conceito de Subjectividade Convencional para classificar esta proposição e procedeu-se à re-classificação da frase do Paulo. Subjectividade Pessoal foi o conceito escolhido para a ideia de que a verdade é uma interpretação.


A "verdade absoluta" escolhida pela Lara, o mote para toda esta discussão de mais de duas horas, foi novamamente posta em causa pelo João com a seguinte hipótese: "a verdade é uma utopia necessária." Subjectividade Universal foi o conceito encontrado pelo grupo para diferenciar esta proposição das duas anteriores. A razão encontrada foi que apesar de ser algo subjectivo e pessoal, a ideia de verdade é algo que todos os seres humanos têm de possuir para poderem viver e sobreviver.

[nota: esta ideia de verdade defendida pelo João, o mais novo participante deste Café Filosófico, não andará muito longe da teoria pragamatista da verdade proposta por William James, e actualmente defendida, por exemplo, por Richar Rorty.]

Uma sessão marcada pela atenção às palavras. Cada uma delas.
Despeço-me do espaço e volto, em boa companhia, para junto daquela coluna vertebral em espiral.
Olho de novo para baixo e sinto amnésia de qualquer verdade absoluta.
Ligo o carro e conduzo nas memórias do 100º Café Filosófico.


Copos perfumados a rigor. Perguntas soltas:

- "A nossa vida tem objectivo?" (António)

- "Qual o nosso lugar no universo?" (Angelina)

- "Pensamos melhor quando estamos desprendidos ou sóbrios?" (Simona)

- "Que finalidade desejaríamos para a nossa vida?" (Virgílio)

- "Qual o uso que damos à nossa vida?" (Jorge)

- "Porque é que existe o ser em vez do nada?" (Cristina)

A pergunta do António prevaleceu sobre as outras e encontrou a primeira resposta no seu autor na forma de um silogismo:

"Não porque somos iguais aos animais.
Os animais não têm objectivos
Logo não temos objectivos."

O grupo nomeou esta ideia de "tese do igualitarismo" pois a recusa de um objectivo para a vida do homem acentava numa suposta igualdade com a vida dos animais.

Discutida esta ideia, e refutada até ao ponto de o seu autor a "deixar cair", outras ideias foram avançadas para tentar responder à pergunta do inicial. Entre elas a "tese subjectivista" da Maria Manuel que defendeu que "a vida tem objectivos porque nós os criamos, mas não Um Objectivo."

Entretanto apresentou-se-nos a tese do José Rui para quem "a vida tem sentido por si mesma", e que foi posta em causa por alguns participantes para quem só um ser consciente e intencional pode conferir sentido à vida. A partir daqui o diálogo desenrolou-se em torno da questão de saber se o Caos enquanto origem da vida pode ter um sentido em si mesmo, ou se apenas uma inteligência exterior pode conferir sentido ao Caos e, como tal, à vida. Aflorou também a ideia de que a vida só faria sentido para um Criador omnisciente.

No fim da sessão, e em jeito de síntese, o Paulo arriscou a ideia que "a nossa vida tem objectivo porque o próprio objectivo da vida é manter-mo-nos vivos." Mais uma vez esta ideia encontrou alguma resistência e predispôs alguns participantes a prolongarem dialecticamente o Café Filosófico para lá de qualquer horário minimanente aceitável. Tivemos de acabar aqui mais um encontro filosófico no Piano-Bar do Clube Literário do Porto (três anos depois da primeira sessão exactamente no mesmo local).

Uma sessão com sabor especial registada num livrinho de memórias [ver aqui].
Obrigada Tomás pela tua partilha de leveza.

Nota final para os supositórios atómicos do Virgílio.
Chantal Guilhonato


No centésimo Café Filosófico foi servido um Porto de Honra gentilmente oferecido pela Porto Ramos Pinto


Mais uma vez, eu é que agradeço a todos esta oportunidade que me dão de regularmente refrescar a minha mente com as vossas ideias e pensamentos.
Abraços a todos,
Tomás


Registo do 102º Café Filosófico, por Paulo Pereira

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

93º CAFÉ FILOSÓFICO - Aparência e Realidade



Cafés Filosóficos e Conversas de Café

Não há dois Cafés Filosóficos iguais. E é essa mesma variedade de sessões, de estilos de moderação, de problemáticas e de formas de participação que torna difícil a definição do próprio conceito de Café Filosófico. Se há algo que um Café Filosófico não é, é Conversa de Café. Numa Conversa de Café cada um diz o que quer, na altura que quer e normalmente diz aquilo que considera ser importante e inadiável. Aí os discursos atropelam-se, as ideias misturam-se, a conversa começa num ponto e rapidamente salta para outro, e outro e ainda outro e todos falam, alguns berram e, normalmente, não há uma real compreensão do que é dito. Ou, a existir essa compreensão ela é muito superficial ou muito tácita, o que, de ambas as formas é uma compreensão pouco filosófica que se quer profunda e explícita.


Outra diferença flagrante entre um Café Filosófico e uma Conversa de Café está em que normalmente saímos de uma Conversa de Café com as certezas com que iniciámos a conversa ainda mais firmes uma vez que tudo o que fizemos nessa conversa foi afirmar e reafirmar aquilo em que já acreditávamos. Já num Café Filosófico é normal sairmos com as nossas certezas feitas em cacos pois o que se faz num Café Filosófico é ouvir críticas às nossas ideias de uma forma tranquila e racional. Uma vez eliminada a nossa ânsia em nos afirmarmos e em nos defendermos estamos mais aptos a ouvir a razão que muitas vezes está do lado dos outros e não do nosso lado.


É por estes motivos que apenas confunde um Café Filosófico com uma Conversa de Café quem nunca participou num Café Filosófico, uma vez que o que se faz lá é exactamente o contrário do que se faz numa Conversa de Café.


Julgo que o Café Filosófico deste domingo no Clube Literário do Porto foi um bom exemplo do contraste entre estas duas formas de conversar (a filosófica e a meramente social). Do meu ponto de vista, enquanto moderador, foi uma sessão esgotante pois tive de lidar com os obstáculos que naturalmente surgem numa sessão filosófica deste tipo, ainda por cima contando com uma grande percentagem de participantes jovens (estudantes do ensino secundário e universitário que participavam num Encontro Nacional de Estudantes de Física) ansiosos por se exprimirem, criticarem, lançarem ideias atrás de ideias. Ainda do meu ponto de vista foi uma das sessões mais gratificantes que tive até hoje, exactamente pelos mesmos motivos que acabei de enunciar.

Quanto ao ponto de vista dos participantes, obviamente que cada um terá o seu e que este será único e irrepetível. Felizmente continuamos a contar com a disponibilidade da Chantal Guilhonato para nos revelar o seu ponto de vista de mais um destes nossos diálogo filosóficos. Em baixo seguem as suas notas. A foto desta sessão é do Paulo Pereira. A todos muito obrigado.


Notas de Chantal Guilhonato do 93º CAFÉ FILOSÓFICO no Clube Literário do Porto

A placa de matrícula à minha frente não tinha letras nem algarismos. Apenas ponteiros. Os imaginários tictatiavam-me que chegaria a tempo. Os outros ignorei-os.

Fiz a vontade ao rádio que me pedia descanso e entrei no CLP.

A sala estava cheia de pessoas e senti o cheiro fresco a ideias. À medida que pedia licença para chegar à única cadeira por colonizar, tornou-se claro que afinal o ar já transpirava reflexão.

Parou de imediato o meu relógio de Alice no país das maravilhas.

Deixei-me invadir pela perda de um tempo partilhado apenas por outros. Agora tinha de pedir licença à mente para me deixar correr atrás de argumentos que estavam em maratona há meia hora.

Descobri o tema da sessão Realidade e Aparência e que o exercício proposto ao público presente era o de “problematizarem” esses conceitos, ou seja, que fossem propostas perguntas que nos ajudassem a penetrar mais fundo na nossa compreensão dos conceitos de “Realidade e Aparência”. Olhei para as duas perguntas de silhueta preta, desenhadas pelo marcador do Tomás.

- Até que ponto podemos distinguir a aparência da realidade (Inês)?

- A aparência condiciona a percepção da realidade (António)?

Enquanto se procuravam os conceitos essenciais de cada uma delas, pedi-me um tempo extra e entreguei-me à atmosfera da sala. Tecidos caracteriais vestiam ideias ora vivas e impacientes ora ponderadas e reflectidas.

«Quantidade» foi o conceito mais votado para classificar a primeira pergunta e «Possibilidade» para a segunda. Pelo meio ficaram «Relação», «Veracidade» e «Transformação».

Antes de nascer uma terceira pergunta, o Tomás propôs-nos que distinguíssemos quatro tipos de relações possíveis. Estes diferentes conceitos poderiam ajudar-nos na tarefa de classificar/diferenciar as perguntas que iam surgindo:

• Necessidade

• Possibilidade;

• Probabilidade

• Impossibilidade;

Uma terceira pergunta surgiu no quadro.

- Podemos chegar à realidade (Rui)?

Foram propostos quatro conceitos para classificar esta pergunta:

• Qualitativo (Maria Manuel);

• Capacidade (Carla);

• Possibilidade (Inês);

• Finalidade (Alice).

Eu continuava a pedir-me tempo para observar o que ouvia.

Depois de debatidos os dois conceitos escolhidos, neste caso «Possibilidade» (associado a uma limitação absoluta) e «Capacidade» (associado a uma limitação humana), foi votado o conceito de «Possibilidade».

Dado que a segunda e terceira perguntas tinham o mesmo conceito associado (Possibilidade), procurou-se a diferença entre ambas:

O António arriscou uma hipótese: na pergunta 2 estaríamos perante uma «possibilidade subjectiva» e na 3 de uma «possibilidade objectiva».

Já para o Ricardo: na pergunta 2 estaríamos perante uma «possibilidade circunstancial» e na 3 de uma «possibilidade universal». Esta sugestão foi a escolhida pelo grupo.

[Todo este processo de clarificar e classificar as três perguntas sugeridas pelos participantes não é mais que procurar pôr em prática uma metodologia de investigação filosófica proposta por Descartes: avançar através de ideias claras e distintas.]

Das três perguntas o grupo seleccionou a última: Podemos chegar à realidade?

Partimos então em busca de algumas respostas:

- Sim, porque a percepção é um sub-conjunto da realidade (Tiago);

- Sim, porque a realidade existe (Carla).

Aqui a Maria Manuel considerou não existir argumento pois a existência da realidade não nos permite concluir que a podemos atingir.

Em contraposição, o Rui considerou irrelevante tentarmos perceber se existia ou não um argumento. O grupo discutiu então a pertinência ou não da argumentação num diálogo filosófico.

No final alguns dos participantes avançaram com uma definição para realidade e/ou aparência:

- Realidade é o conjunto das percepções;
- Realidade é um conceito inventado para explicar o que não conseguimos entender;
- Realidade é um universo material;
- Aparência é a nossa realidade pessoal;
- Realidade é tudo o que existe;
- Realidade é tudo o que sinto;
- Aparência é a nossa percepção da realidade;
- Realidade é a verdade da aparência.

Concedi o que me fui pedindo: tempo às ideias para observar.

Na realidade não sou a Alice mas vou fazer de conta. A placa de matrícula não tinha ponteiros, apenas letras e algarismos.



Eram quase oito e meia da noite e já não tínhamos mais tempo para continuar o Café Filosófico (começou às cinco e meia). No entanto a sessão continuou para mim e para mais alguns participantes pelo jantar adentro e até às três da manhã debatendo estas e outras questões que entretanto foram surgindo na companhia de umas francesinhas e uns finos. Para outros que não nos acompanharam no nosso pequeno “symposium” sei que a discussão do final da tarde continuou a sentir-se por algumas horas mais, como o som de um sino que continua a ouvir-se muito depois do badalo ter batido no ferro. É isso que atesta esta mensagem do António que recebi na manhã seguinte e que aqui reproduzo, assim como a minha resposta.


- Acho curioso que nos negue a definição dos conceitos, de que tanto precisamos para edificar a casa que é o dia, em bases íntimamente sólidas. Primeiro o "geral" e depois... mais tarde, o "singular". (António)

- Olá António,
esta é apenas uma metodologia de debate filosófico que gosto de experimentar, nada mais do que isso. Não tem nenhum carácter metodológico especial além de ser um contributo para nos pôr a pensar.

Não há dúvida que começar por definir os termos da discussão é a forma canónica de se fazer filosofia e teria filósofos como Spinoza e Descartes a dar-lhe razão. Por outro lado Hegel dir-nos-ia que é a Dialéctica dentro do próprio conceito a força motriz da filosofia, e o que fazemos neste tipo de sessões é, exactamente, explorar essa dinâmica existente dentro dos conceitos.

Mas a minha motivação (enquanto moderador de debates filosófico) para favorecer esta investigação "in media rés" (digamos assim) é que a discussão não se afunde numa procura de definições, uma constante e interminável busca pelos "O que é X?". Desta forma não trabalhamos apenas definições mas outras competências filosóficas como a "Problematização" (levantar perguntas a conceitos (como na sessão de ontem), que com a dinâmica do grupo nos permite ver problemas onde antes não viamos, a "Conceptualização" (análise e sintese conceptual e a "Argumentação".

O facto de deixarmos a Definição para o fim também faz com que essa mesma definição esteja mais informada. Mas como lhe disse no início, é apenas um recurso metodológico sem qualquer intenção para além disso. (Tomás)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

86º CAFÉ FILOSÓFICO - O QUE É A FILOSOFIA?


O que é a Filosofia?

Foram muitas as vezes que esta enorme pergunta surgiu ao longo destes quase três anos de Cafés Filosóficos. Hoje foi, porém, a primeira vez que a confrontamos de uma forma explícita e nos lançámos numa reflexão conjunta para lhe tentar responder.


A razão porque só agora propusemos esta pergunta para um Café Filosófico está de alguma forma ligada à metodologia que hoje utilizamos para lhe tentar responder. A razão é que, ao contrário do que normalmente se pensa, não é necessário começar uma investigação filosófica pela definição dos conceitos em jogo. Esta definição é, sem dúvida, útil e a partir de certo ponto absolutamente essencial. Porém essa definição pode surgir a meio ou no fim da investigação filosófica após um período inicial no diálogo de troca de ideias, interpretações e significados e à medida que os argumentos e os pedidos de clarificação e síntese vão surgindo naturalmente no debate.


Da mesma forma também nós nos Cafés Filosóficos não precisámos de definir o que era a "filosofia" para começarmos a filosofar. Acredito até que essa ânsia por fixar o significado dos termos (no contexto de um Diálogo Filosófico) é ao mesmo tempo inglória e limitadora das possibilidades que um Diálogo Filosófico nos dá.
É inglória pois lança-nos numa busca pelos fundamentos de algo quando ainda nem sequer conhecemos muito bem o terreno em que nos movemos, uma vez que ainda não experimentámos os diversos conceitos e problemas que orbitam em torno do conceito a definir. É limitadora pois impede à partida a exploração dialógica que a ambiguidade e vagueza dos conceitos filosóficos nos permite.


Nesta sessão seguimos uma metodologia conhecida por "Perguntar à Pergunta." - a mesma utilizada por Walter Kohan neste Café Filosófico.
O que este método nos sugere é que em vez de procurarmos directamente a resposta a uma pergunta (a definição de filosofia, neste caso)  iniciemos uma busca por outras perguntas que de alguma forma nos iluminassem alguns dos pressupostos por trás da pergunta inicial.


As notas que se seguem são, como habitualmente, da Chantal Guilhonato e as fotografia são do José Rui M. Correia.



"Escavar buracos na areia. Gosto disso, desde pequena.
Porque escavas se a maré está a subir?
E se a maré resolvesse não subir...

Contrariar a direcção do pensamento comum. Este foi o ponto de partida do último Café Filosófico: procurar os pressupostos filosóficos da pergunta «O que é a Filosofia?» e tentar perceber de que forma eles nos poderiam ajudar a responder à pergunta inicial.

O Fernando avançou com a primeira questão:
A filosofia é necessária?

A Salomé rejeitou a questão do Fernando propondo em sua vez a pergunta:
O que é o conhecimento? A razão apresentada pela Salomé para a antecedência desta pergunta em relação à do Fernando foi que apenas posso sentir necessidade daquilo que conheço.

Outros participantes perseguiram esta pista e a interrogação da Salomé evoluiu para:
Qual a distinção entre conhecimento e filosofia?

O Nuno considerou que as questões anteriores estavam utilizar como um dos seus termos o conceito de "filosofia" que era aquele que se estava a tentar definir. Desta forma estas perguntas perdiam a sua pertinência pois não seriam capazes de nos ajudar na definição de "filosofia".

O Alexandre perguntou então se é necessário definir algo para o conhecer?

Para o Zé Rui, a pista de reflexão assentaria sobre a questão:
Porque surgiu a filosofia? (entendido neste caso como «motivo». A ambiguidade do conceito "motivo" foi tornada evidente com as diferentes interpretações dadas pela Salomé que entende por "motivo" uma «vontade Universal» e para o Jorge que entende por motivo «causas culturais».

A pergunta proposta pelo Jorge estava certamente ligada à sua última intervenção pois surgiu depois de nos ter contado um episódio em que conheceu um "feiticeiro" tribal que considerava um filósofo, "mais filósofo que muitos filósofos ocidentais":
Só pode ser filósofo quem sabe o que é a filosofia? (Jorge)


Para o Nuno, a pergunta central seria antes
O que é o Homem?
Esta questão foi rejeitada pelo Tiago por considerar utópico tentar respondê-la para se chegar à de finição de filosofia, e foi considerada demasiado abstracta pela Salomé).

Por fim, o Tiago propôs-nos a pergunta:
Qual o objecto de estudo da filosofia? A Joana numa tentativa de clarificar a pergunta do Tiago fez com que surgisse uma outra pergunta que poderia interesar à nossa investigação:
Qual o objectivo da filosofia?

Ficámos então com uma lista de perguntas que não só nos iluminaram o caminho para as respostas à pergunta inicial, "O que é a filosofia?", como nos deram outras tantas pistas de investigação para outras sessões de Café Filosófico.

O que é a filosofia?
A filosofia é necessária?
O que é o conhecimento?
Qual a distinção entre conhecimento e filosofia?5 - É necessário definir algo para o conhecer?
Só pode ser filósofo quem sabe o que é a filosofia?
O que é o homem?
Qual o objecto da filosofia?
Qual o objectivo da filosofia?


No final da sessão o Tomás pediu-nos a nossa definição de Filosofia, agora informada de toda a discussão em torno das perguntas que foram surgindo:

•A filosofia é um sistema de reflexão sobre as relações do Homem com o Universo (António)

•A filosofia procura dar respostas a realidades não palpáveis (Salomé)

•A filosofia esclarece a relação entre o Homem e o Objecto (Fernando)

•A filosofia é uma prática pessoal (Chantal)

•A filosofia tenta apaziguar a complexidade (Tiago)

•A filosofia é um questionamento crítico que visa o auto-conhecimento (…) (Nuno)

•A filosofia procura discutir com método perguntas através de outras perguntas (Joana)

•A filosofia é uma atitude perante o conhecimento e os Homens

•A filosofia é um sistema de compreensão de ideias

•A filosofia é uma desconstrução do pensamento (Luís Baptista)

•O objectivo da filosofia é chegar à ausência dela. Chegar ao dia em que ninguém vai filosofar (Zé Tapum).


E se a maré resolvesse não subir..."

Chantal


quinta-feira, 30 de junho de 2011

82º CAFÉ FILOSÓFICO





Que pergunta farias a Deus? 


(versão Jovens Filósofos aqui)


Foi este o mote com que iniciamos esta sessão de Café Filosófico, o última antes das férias. Mais uma vez a nossa amiga Chantal atentamente registou algumas das intervenções dos participantes que em baixo publico.


«Quem és Tu?
Não sei se imagino.
Neste blind date, colocamos-Te a pergunta que gostaríamos de ver respondida:
- Porque é que inventaste o Homem? (Rui)
- O que é a lógica? (Jorge)
- Quem é o teu pai? (Moisés)
- O que é a mentira? (Chantal)
- Interessas-te por nós? (Tiago)
- O que é Deus? (Bibiana)
- Porque concedes tanto tempo ao que está errado? (Zé Pedro)
- A história é racional? (Vasco)
- A alma é imortal? (Joana)
- O mal existe? (Maria)

O que achaste?
Não sei se imagino.
Neste novelo interrogativo, escolhemos, por Ti ou para Ti, duas perguntas:

- O que é Deus?
- Quem é o teu pai, que evoluiu para: Quem criou o criador?

O que achaste?
Não sei se imagino.
Nesta teia, apresentamos, por Ti ou para Ti, algumas respostas:
- Não se trata de uma existência concreta, mas não deixa de existir. As ideias e os mitos humanos também existem (Rui)
- Importa definir o sentido de existência = concretude (Tiago)
- Deus Eterno e Infinito. Encontra-se portanto fora dos parâmetros de Espaço e Tempo, o que faz com que haja um problema de correspondência para a definição da própria concretude (Luís)
É possível conceber a ideia de eternidade?
- Não porque está para além dos limites (corporais) do Homem (Rui)
- Sim, porque os limites (corporais) do Homem não são intransponíveis (Chantal)
- Sim, porque é para além da minha morte (Maria).
- Não, porque a razão é limitada (Luís)
Nota: Big Bang. T0. Tempo relativo a esta dimensão (Paulo)
O tempo é um contentor (Jorge)
- Sim, porque simplesmente falamos sobre ela = ideia de eternidade (Carla)
- Não, porque teríamos de ser Deus (Rui)
Nota: o universo é finito mas ilimitado. É possível conceber mas não demonstrar (Paulo)
- Sim, porque podemos imaginar tudo: o que existe e o que não existe (Rui «2»)
Nota: Espaço e Tempo são categorias (Tiago)

O que achaste?
Não sei se imagino.
Quem criou o criador? Eternidade/Outra realidade (Maria)
Podemos saber se Deus existe (Tomás)?
- Não, porque não pode ser submetido a uma prova experimental/critérios de prova (Tiago)
- Sim, com exemplos de relatos dos povos (Bibiana)
- Não, objectivamente não (Rui «2»)
- Não, tendo em conta a história da humanidade (Carla)
Nota: esta pergunta é em si paradoxal (Luís)
- Sim, em categorias místicas (Tiago)
- Sim, porque eu posso ser um pêndulo Aqui e Agora (Chantal)
Nota: Se não podemos saber se Deus existe, faz sentido alguém acreditar em Deus como o Zé Pedro? (Tomás)
Nota: na concepção tradicional de Deus, ele é imoral porque só aparece a uns e não a outros (Vasco)
- Não, a ideia de Deus não sendo universal, não se pode provar a sua existência (Rui)
- Sim, fazendo abstracção da instrumentalização (Religiões/Templos/etc) de Deus feita pelo Homem (Chantal)
Nota. Conceito de Deus, como outros, é subjectivo (Maria)
O que achaste?
Não sei se imagino mas sei que vou ter saudades Tuas.»
Chantal

terça-feira, 31 de maio de 2011

A Beleza_Cafés Filosóficos 78 e 80





Nos Cafés Filosóficos números 78 e 80 (19 e 29 de Maio) ocupamos o nosso tempo a reflectir sobre a Beleza (com uma incursão na Justiça no 79º Café Filosófico).
Num primeiro momento (78º Café Filosófico) investigámos as ligações entre o Belo e o Bom e num segundo momento procuramos diferentes sentidos para o conceito de Beleza a partir da análise da Beleza em duas pinturas bastante distintas: "O Nascimento de Vénus" de Botticelli e "A Bisbilhoteira" (cabeça de velha) de Maria Amélia Carneiro.

Mais uma vez a dupla Chantal e José Rui presenteiam este blog com as suas fotografias e notas da sessão.
Para eles, mais uma vez, o meu obrigado.

Até à próxima,


Tomás




Notas dos Cafés Filosóficos sobre a Beleza, por Chantal G.

«Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais belo do que eu?» perguntava a imagem reflectida.
Enquanto desfilavam pixeis de respostas, a Branca de Neve deixou-se adormecer.

78º CAFÉ FILOSÓFICO | 19 DE MAIO | CASA BARBOT- CASA DA CULTURA DE GAIA
A 19 de Maio, a limousine amarela parou junto à Casa Barbot.
Ponto de partida: «um incêndio pode ser belo»?
- Sim, porque é atraente a nível estético (Daniel);
Pergunta: é possível separar estética de ética? (Alexandre);

- Sim, um incêndio pode ser belo porque tem uma utilidade social (Carlos)
- Podemos dizer que tem apenas uma utilidade, pois o Beo pode ser útil noutros sentidos que não o “social”. (Luís)

- Sim, porque (hipoteticamente) é possível que a sociedade nos permita achar um incêndio belo (Gabriela);
Nota: O incêndio é belo e “fim de papo”. (Daniel) – o grupo encetou aqui uma curta reflexão em torno do significado do termo “fim de papo” e da sua pertinência numa discussão filosófica..

- Não, porque não dissocio as consequências do espectáculo (Maria de Jesus);

- Sim, porque a beleza está na sua essência (Chantal);
- Não, porque existe pelo menos uma pessoa para a qual este incêndio não é belo (Paulo);

Como definir beleza?
- Atraente (6 pessoas);
- Útil (1 pessoa);
- Construção Social (4 pessoas);
- Agradável (4 pessoas);
- Natural (1 pessoa);
- Consensual (1 pessoa).

Antes da meia-noite, fomos de encontro à noite.
«Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais belo do que eu?» insistia a imagem reflectida.
Enquanto desfilavam pixeis de respostas, a Cinderela trincava uma maçã perfeita na sua forma vermelha.

80º CAFÉ FILOSÓFICO | 29 DE MAIO | CLUBE LITERÁRIO DO PORTO
A 29 de Maio, de novo a limousine amarela que parou, algo distante, do Clube Literário do Porto.
Ponto de partida: o rosto de Vénus, num fragmento da obra do seu nascimento da autoria de Botticelli. O que há de belo nesta imagem?

- Belo é o que nos toca no sentido subjectivo (Miguel);
Nota: tensão entre beleza universal e subjectiva;

- Beleza reside no sujeito e não no objecto. A beleza existe enquanto ideia de beleza. (Joana)

- O belo tem equilíbrio (Maria Manuel);

Pergunta: O bonito e o belo são sinónimos?

- A beleza está na harmonia (Zé Rui);

- A beleza está retratada na obra (Tiago);
Pergunta: O que explica a universalidade do conceito de beleza?

- Beleza é ausência de impureza, é equilíbrio (Daniel);
- Beleza é uma tendência à perfeição (Maria);
- Beleza é sentir-se bem, um despertar de sensações.

Pergunta: A beleza é subjectiva ou cultural?
- A beleza é objectiva (Zé Rui);

- A apreciação de beleza é subjectiva e a beleza é objectiva (Ricardo);
Síntese dos conceitos abordados: Beleza intelectual e sensitiva: harmonia, pureza, serenidade, equilíbrio, enigma, faceta maternal.

Embora deixasse de «levar e trazer», Joaquina Constança, conhecida como a “bisbilhoteira”, faz a sua aparição na sala. 
(Projecção de um quadro de Maria Amélia Carneiro retratando a cabeça de uma velha. O objectivo foi contrastar a Beleza da Bisbilhoteira com a Beleza da Vénus de Botticelli e, dessa forma, pensarmos sobre a diversidade do conceito de Beleza).

Justino vê beleza nesta imagem da "velha". Miguel faz um «mea culpa» ao reconhecer que «Belo» e «Bonito» não são a mesma coisa.

- Este retrato é mais belo que o anterior porque é mais natural (Ricardo);
- No outro quadro (Vénus de Botticelli), a beleza estava divinizada. Neste não vejo beleza, apenas ternura (Joana);

Pergunta: O que há de comum entre as duas imagens?

- Memórias (Jorge);
- Intenção dos autores em provocar em nós sensações (Justino);
- Adequação entre forma e conteúdo (Tiago);

Pergunta final: O que é a beleza?
- Beleza é Equilíbrio (Daniel);
- É a aplicação de fórmulas matemáticas com harmonia (Zé Rui);
- Um Mito (Jorge);
- Beleza = Equilíbrio + Harmonia + Paz (Miguel);
- Um Ideal abstracto concretizado pelo sujeito (Joana);
- A aplicação final da racionalidade e sensibilidade estéticas (Ricardo);
- Ressonância positiva que leva a uma necessidade de contemplação (Paulo);
- Fertilidade ou esterilidade (Chantal);
- Sensibilidade sublimada (Tiago).

Cansado de esperar por uma resposta, Cyrano despede-se do espelho disforme.
O Belo e a Consolação...

Chantal G.

domingo, 17 de abril de 2011

75º CAFÉ FILOSÓFICO_LIBERDADE




O prisioneiro voluntário
Um homem é levado durante o sono para uma cela. Quando acorda percebe que a cela tem todas as comodidades que pode querer. Livros para ler, CD´s de música para ouvir, um sofá confortável, uma boa cama e um companheiro com quem gosta conversar durante horas mas que se cala mal não o quer ouvir mais. Rapidamente percebe que não quer sair de lá e prepara-se para passar naquela cela o resto da sua vida.
No entanto mesmo que quisesse sair não podia, uma vez que a porta da cela se encontra fechada e o carcereiro deitou fora a chave.

- Este homem é livre?  



O José Rui M. Correia continua a marcar a imagem destes Cafés Filosóficos com as suas fotografias e a Chantal com os seus textos inspirados nestas sessões. Desta vez dá-nos conta das diferenças entre duas sessões de Café Filosófico onde tratámos este problema do "prisioneiro voluntário",
o 73º Café Filosófico no E-Learning Café e o 75º Café Filosófico no Clube Literário do Porto, nomeadamente dos diferentes significados encontrados para Liberdade em cada uma delas.

Estas contribuições voluntárias para o nosso blog são um sinal do que há muito defendo acerca dos Cafés Filosóficos, que eles continuam muito para além do espaço-tempo que delimitam a sessão. No meu caso continuam em casa, pela noite dentro a pensar no que falámos. E com vocês, passa-se o mesmo?








Texto de Chantal G.


Os dois quartos são contíguos. Ficam a uma escassa distância de duas semanas de intervalo.
Do not disturb, Prisioneiro Voluntário (John Locke).

Guião:
Durante a noite, uma pessoa é levada para um quarto, com uma companhia, no qual dispõe de música, leitura, etc. Existe naquele espaço tudo o que essa pessoa deseja pelo que ela não quer sair do quarto. Porém, nem que o quisesse fazer, não poderia. Essa pessoa é livre?

Cenário 1: 
Noite amena. Terça-feira. E-Learning Café


- Não, não é livre porque a pessoa não escolheu ir para o quarto. Essa situação foi-lhe imposta (Grupo: Maria/Ana/Chantal);
- Não, não é livre porque não pode sair (Leonor);
- Sim, porque ser livre é cumprir a sua vontade/querer o que se tem (Sérgio).

2 concepções de Liberdade:

- Liberdade = Querer (Ana) - Estoicismo
- Liberdade = Poder escolher (Maria) – Descartes

Transpondo o quarto para a condição humana:
- Sim, somos livres porque sonhamos (Chantal)
- Sim, porque podemos escolher (Ricardo)
- Sim, porque sabemos que não sabemos tudo (Sérgio)
Cenário 2: 
Tarde quente. Domingo. Clube literário.


- Não, não é livre porque a pessoa foi forçada a estar lá (Rui);
- Sim, é livre porque se não procura sair é porque se sente lá bem (Jorge);
- Não, não é livre porque não escolhe a sua condição (Carlos);
- Sim, porque a pessoa escolheu quando decidiu ficar (Jorge);
- Não, porque a pessoa foi condicionada logo não é livre (Rui);

Nota: Todos nascemos condicionados (Zé Rui).

- Sim, porque a pessoa sente-se livre (Ana Paula);
- Não, não é livre porque a pessoa não escolheu ser como é (Luís);

Nota: A partir de que número de opções somos livres? (Luís).
Nota: Não se trata de uma questão quantitativa mas qualitativa (Rui)

2 concepções de Liberdade:

Liberdade = Vontade (Daniel)
Liberdade = Acção (Daniel)

[Pergunta sugerida para dar seguimento à discussão]

Qual a diferença entre o prisioneiro voluntário e o “não prisioneiro”?

Semelhança: Ambos estão condicionados: Cela / Viver (Daniel)
Diferença: A quantidade de escolhas (Daniel)
Diferença: O prisioneiro é mais livre porque exerce a sua vontade (Jorge)

Nota: tendência para a indeterminação relativista [abusar do "pode" e do "depende" que não nos permite aprofundar e analisar nenhum sentido dos conceitos e das problemáticas em causa.]

Transpondo o quarto para a condição humana:
Somos Livres?

- Sim, ser livre é não pensar na liberdade (Jorge);
- Não, ser livre é fazer o que se quer (Euridíce);
- Sim, porque temos direitos e deveres, como o trabalho (Simão);
- Não, porque todos os nossos pensamentos são condicionados (Luís);

Nota: «morder a bala»: aceitar as consequências aparentemente inaceitáveis de uma posição.
[O Luís "mordeu a bala" ao aceitar que a sua posição niilista quanto há liberdade leva também a um niilismo quanto à responsabilidade moral: "não somos livres, logo não somos responsáveis pelo que fazemos."]

- Não, a pessoa é condenada a fazer o que quer (Luís);

Nota: O Querer não se coaduna com o instinto de sobrevivência (Jorge).


Cenário 3 – Derivação final: 
Tarde Quente. Sábado. Galeria Municipal em Matosinhos.


O autor da exposição «Subway Life», António Jorge Gonçalves, referiu algures numa parede 
«os meus modelos ignoram-me mas às vezes é como se sentisse as cócegas que lhes faço com a minha caneta sobre o papel».
Nem que ela nos ignore, façamos cócegas à Liberdade.

Chantal