quinta-feira, 27 de maio de 2010

UMA LIÇÃO DE HUMILDADE



O QUE É A BELEZA?
Serões Filosóficos com Crianças  e Pais
Colégio do Sardão - Última quarta-feira do mês


Neste que foi o último “serão filosófico” deste ano lectivo a pergunta que tínhamos pela frente era a seguinte:

- A beleza é importante para nós?


Para responder a esta pergunta o grupo decidiu que em primeiro lugar tínhamos de saber de que é que estamos a falar quando falamos de beleza.

Para isso recorremos a uma pergunta que o André já tinha levantado na sessão anterior:

- O que é para nós o conceito de Belo?

Simplificámos um pouco a pergunta e chegámos à seguinte formulação:

- O que é a Beleza?

Começámos por procurar exemplos de coisas belas (uma floresta tropical, uma Torre no Dubai, uma flor) e a partir daqui identificámos dois tipos de beleza: Beleza Artificial (a Torre no Dubai) e Beleza Natural (a floresta tropical e a flor).

Foi sugerido ainda outro tipo de beleza, a Beleza Humana, que enquadraria a beleza das pessoas. Após alguma discussão decidimos incluir a beleza artificial na beleza humana uma vez que aquela é criada pelo homem e ficámos então com dois tipos básicos de beleza: a Beleza Humana e a Beleza Natural.

A nossa investigação em torno da ideia de beleza começava a dar frutos, pelo que continuámos o nosso trabalho de aprofundamento.

Foi sugerida a bondade como outra forma de beleza e agora precisávamos de saber que tipo de beleza é a bondade.

A Mariana, o André, o Rui com o apoio de quase todo o grupo pretendiam enquadrar a bondade na Beleza Humana pois a bondade é algo que é construído pelos homens, defendiam. No entanto o Diogo (6 anos) deu-nos um contra-exemplo que nos fez mudar de ideias: a bondade das árvores que nos deixam respirar.

Com este argumento o grupo mudou de opinião e concluiu que a bondade tanto pode pertencer à Beleza Natural como à Beleza Humana.

Depois de pensarmos profundamente sobre a ideia de beleza e de procurarmos outros exemplos de coisas belas concluímos (até prova em contrário) que todos eles podiam ser identificados com um destes dois tipos básicos de beleza: Beleza Humana e Beleza Natural

De exemplos de coisas belas partimos então para a análise de episódios de beleza que os participantes tivessem vivenciado. O grupo escolheu dois episódios de beleza, um para cada tipo básico:
- Tirar uma maçã de uma árvore e comê-la. (Beleza Natural)

- O sentimento de ter nos braços o filho acabado de nascer. (Beleza Humana)

Depois, a partir de cada um destes dois episódios, procurámos responder à pergunta que nos serviu de mote a esta investigação:

- O que é a beleza?

Dividimo-nos em dois grupos tendo por tarefa definir cada um dos episódios/tipos de beleza

A partir do episódio da maçã o primeiro grupo atingiu a seguinte definição de beleza:

- A beleza é a perfeição de uma maçã vermelha e sentir o gosto, o cheiro, o tacto e a sua visão. (Paulo, Diogo, São, Diana)

O episódio do filho nos braços permitiu ao segundo grupo chegar a esta definição:

- A beleza é uma sensação de satisfação. (Mariana, Rui, André, Gabriela)

A partir destas duas respostas distintas o grupo identificou um elemento comum a cada uma das repostas (sensação) assim como os elementos essenciais de cada uma delas (perfeição e satisfação) e, num insight intelectual simultâneo, o André e o Rui propuseram a seguinte definição de beleza que, além de corrigir a pouca generalidade da primeira definição, faz a síntese das duas definições apresentadas.
- A beleza é uma sensação de perfeita satisfação. (André e Rui)

Confrontar a nossa ideia (abstracta) de beleza com coisas e episódios (concretos) onde essa beleza se revela e materializa permitiu-nos aprofundar a compreensão do que é para nós o belo e a beleza e encontrar uma definição que em nada fica a dever à de outros Grandes Filósofos antes de nós. Investiguem:
http://www.scribd.com/doc/21780133/O-Conceito-de-Beleza-e-Arte-em-Platao


Já era um pouco tarde e de manhã cedo os meninos tinham de vir de novo para a escola e os pais de ir trabalhar. Apesar do esforço grande que é filosofar ainda tivemos tempo e vontade para nos lançarmos à pergunta com que demos início à sessão:

- A beleza é importante para nós?

Obtivemos as seguintes respostas:- Sim, pois ninguém consegue viver sem experienciar sensações de perfeita satisfação. (Paulo - professor)

- Sim, porque não conseguimos viver sem a beleza. (Diogo – 6 anos)
- Sim, porque ao contemplar com satisfação o que é bonito caminhamos para o Belo por excelência, Deus. (Irmã São)
- Sim, para nos sentirmos plenos e que pertencemos a algo. (Diana - mãe)

- Sim, porque sem a beleza não somos tão felizes e sem ela não existiriam coisas belas. (Mariana – 9 anos)
- Sim, pois a beleza permite-nos conhecer a plenitude. (Rui - pai)

- Sim, porque é bom e importante ter uma sensação de perfeita satisfação (é bom e importante porque nos conduz à felicidade). (André – 9 anos)

- Sim, porque gostamos de ter sensações de perfeita satisfação. (Gabriela - mãe)

Até para o ano Sardão!


nota final: só por curiosidade é que deixei registadas as idades dos filósofos presentes nesta sessão no Colégio do Sardão. Como quem esteve presente pôde verificar essa diferença de idades é perfeitamente insignificante quando temos pela frente questões enormes como a de hoje e perante as quais temos todos o mesmo tamanho (muito muito pequenino).
Fazer filosofia com as nossas crianças é uma lição de humildade que todos devíamos experimentar.

3 comentários:

Anónimo disse...

Óptimo trabalho, como sempre, Tomás. Permita-me um comentário assumidamente subjectivo: as "definições" dos miúdos e das miúdas são as mais certeiras, não lhe parece? Últimamente ando interessado em tentar perceber um pouco melhor as relações entre o pensamento infantil e o pensamento adulto no que respeita à "deterioração" (se me faço entender) deste em relação àquele.
Abraço. Paulo Pais

Maria Bernardo disse...

Adorável...
Eu também já fui aluna do colégio Sardão, há muitos anos atrás...E senti um carinho e contentamento por esta iniciativa, num lugar que me deixou referências na pessoa que sou, hoje.
Parabéns a todos os envolvidos nesta experiência.
Maria

Denis Portela disse...

Absolutamente sensacional