domingo, 31 de janeiro de 2010

25º Café Filosófico – Filosofia e Música


http://filosofiacritica.wordpress.com/

Esta sessão no Clube Literário do Porto começou e acabou com um concerto de Guitarra Clássica por dois amigos nossos, o Tiago Sousa (à direita na foto) e o Ricardo Gomes (à esquerda). O objectivo da sessão era reflectir filosóficamente sobre a música. Não sobre a música que ouvimos no concerto, mas sobre a música em geral.

A partir da pergunta “A música é uma linguagem?”, e como é costume nos Cafés Filosóficos, procurámos “desbastar” a discussão das habituais opinões que se multiplicam facilmente (todos temos opiniões e estas, muitas vezes, impedem-nos de pensar) e criar uma rede de argumentos e de conceitos própria de uma verdadeira discussão filosófica que nos permitisse alcançar uma maior compreensão do(s) problema(s) que tínhamos pela frente.
Nesse sentido procurámos entre os participantes desta sessão argumentos, refutações desses argumentos e contra-argumentos.

As notas que se seguem foram retiradas na sessão pela nossa amiga Chantal e deixo-as aqui na íntegra.

Até à próxima,

Tomás

A música é uma linguagem?


Primeiro Argumento: Sim é uma linguagem porque é uma convenção sonora. (Augusto)

Primeira Refutação: Não concordo porque na música há liberdade de criação. (Ana)

Segunda Refutação: Não concordo porque é a música é Arte, um acto criativo logo não convencional.

Terceira RefutaçãoA música só é uma convenção sonora quando escrita. (Fátima)

Contra-Argumento (à Terceira Refutação)Interpretar (uma música) é convencionar. (Augusto)



Segundo Argumento: Sim é uma linguagem porque é uma comunicação artística (Filipe)

Pedido de clarificação do conceito de comunicação: A comunicação necessita de um emissor e de um receptor, ou pode um emissor poder ser simultaneamente receptor? (Luís)

Primeira Refutação: A música só é linguagem quando é interpretada. Há a necessidade de receptor. (Vieira)

Contra-argumento: A pedra de Roseta que já existia enquanto linguagem e só depois foi «descodificada». Ou seja, havia linguagem antes mesmo de ser interpretada.


Terceiro Argumento: Sim, porque é uma forma de expressão (Arminda)

Pedido de clarificação do conceito de expressão: Porque é que o movimento de uma bailarina é arte e o mover do mar não? Qual a diferença entre ambos? Qual a fronteira? (Luis).

Da clarificação supra resultou a inclusão do termo «consciência» para definição da forma de expressão:

Terceiro Argumento (alterado): Sim, porque é uma forma de expressão consciente.


Quarto Argumento: Não, porque não há uma ligação entre a percepção musical e a realidade. (Tiago)

Primeira Refutação: Todos os símbolos (notas musicais) são intencionais. (Fátima)

Segunda Refutação: O primeiro homem a ter criado a música deve tê-lo feito com base nos sons da natureza. (Mª Manuel)

(Tiago referiu que a música tem hoje uma outra dinâmica).

Notas finais:

- Necessidade de se clarificar o que se entende por realidade. Sem essa clarificação cada um interpreta as coisas à sua maneira. (Fátima)

- A música é «tão linguagem» que é escrita. (Augusto)

- Intervenção sobre a importância de assegurar que a interpretação foi efectivada no acto (e não com base em conhecimentos prévios). É batota falar à posteriori: “Alguém diria que a obra “Inverno” de Vivaldi refere a estação do ano “inverno” se já não soubesse isso? (Tiago)

- Existe, além do significado, uma significância. Sendo uma expressão artística, a música é mutável enquanto linguagem. (Filipe)

- A música é uma linguagem se for interpretada como tal. (Rui)


Nota pessoal: Obrigado a todos os Filósofos presentes que possibilitaram toda esta criação de sentidos aqui reproduzida.

Páginas sobre Filosofia da Música: Aqui, Aqui, Aqui e Aqui

2 comentários:

Vitor Guerreiro disse...

O argumento da convenção não me parece funcionar, desde logo porque a arte está cheia de convenções, a começar pela notação ou partitura. Além disso, o sistema tonal, o sistema modal, e outros sistemas de composição, são todos convenções. Depois, não podemos definir uma linguagem pelo aspecto convencional porque há coisas convencionais que não são linguagem.

O procedimento adequado seria começar por perguntar quais as analogias que há entre a música e uma língua natural. Depois, teríamos de determinar quais das propriedades partilhadas são relevantes para se considerar algo como uma linguagem e se isso é suficiente para a música ser uma linguagem.

A minha opinião é a de que a música tem uma propriedade importante, em analogia com a linguagem - a sintaxe, ou um análogo da sintaxe - mas falta-lhe algo crucial, a semântica.
Pode haver referência em música, por exemplo, certas obras musicais citam outras, como o faz Tchaikovsky na Abertura 1812. E há o fenómeno das "onomatopeias" musicais, ou seja, imitação de sons naturais e artificiais, não musicais, através de sons musicais. Mas isto não é suficiente. Para ser representacional, a música teria de poder ser um discurso articulado sobre o mundo, e para isso teria de ter algo mais do que "isomorfismos" ambíguos com certos fenómenos, como o comportamento emocionalmente expressivo ou a dinâmica do discurso emotivo. (p ex, a voz irada é intensa, veloz, abrupta, etc - uma música com essas características pode evocar a ira, mas isto é no mínimo ambíguo).

Depois há que distinguir bem entre "representação" e "expressão". A música pode ser expressiva, isto é, pode evocar estados mentais / emocionais sem ser ACERCA desses estados. A turbulência de um rio pode evocar estados emotivos mas não é acerca da turbulência, não representa a turbulência. De igual modo, o facto de uma passagem musical evocar um estado mental ou acontecimento, não faz dela uma linguagem.

Muitos parabéns pela iniciativa. Tenho pena de só ter tido conhecimento dela depois de ocorrida. Nem sempre vejo atempadamente todos os emails. Tenho trabalhado ultimamente sobre filosofia da música e acho muito importantes todas as iniciativas deste género, que motivem discussão filosófica sobre a música.

Tomás disse...

Olá Vitor,

obrigado pela tua contribuição, e parabéns pelo trabalho que tens desenvolvido em filosofia da música, assim como em estética.

Quando puderes aparece num dos nossos Cafés Filosóficos, de certeza que ias ser uma "contratação de peso".

abraço,
Tomás