quarta-feira, 20 de outubro de 2010

47º CAFÉ FILOSÓFICO






Esta sessão de Café Filosófico começou de uma forma pouco usual uma vez que houve quase unanimidade nas respostas à pergunta inicial (apenas um participante respondeu que "NÃO" a esta pergunta mas, como veremos, esse "não" aproxima-se bastante de um "sim").
No entanto esse unanimismo era apenas aparente como rapidamente percebemos quando começámos a analisar cada uma das razões apresentadas por cada um dos participantes deste Café Filosófico. Ou seja,(quase) todos concordavam na resposta mas não nas razões com que defendiam essa sua resposta.

É legítimo acreditar em Deus sem provas?


A esta pergunta a Paula II respondeu que

Sim, pois também acreditamos em muitas outras coisas sem provas.

Esta resposta da Paula foi prontamente criticada pelo Pedro Xavier (o filósofo mais novo desta sessão) para quem esta resposta é fraca pois não podemos dizer que é legítimo acreditar em algo sem provas apenas porque acreditamos em muitas outras coisas sem provas. Pode, simplesmente, ser ilegítimo acreditar em qualquer coisa sem provas. Ou seja, a Paula tinha ainda de provar por que é que a frequência com que acreditamos em coisas sem provas legitima essa mesma atitude.

Esta intervenção do Pedro Xavier ao mesmo tempo que problematizou o argumento da Paula também o fez a uma série de outros argumentos semelhantes como o do Sérgio para quem
 
É legítimo acreditar em Deus sem provas porque Deus é algo que não se pode comprovar empiricamente.

Para a Cláudia esta resposta é incoerente. Já para o Tiago o Sérgio não responde sequer à pergunta inicial pois apenas

(...) afirma que não se pode provar a existência de Deus, não apresentando razões a favor da legitimidade da crença em Deus sem provas.

Ou seja, para o Tiago fica por provar por que é que da impossibilidade da prova empírica da existência de Deus se retira a legitimidade desse crença sem provas. À semelhança do argumento da Paula II aqui também há uma "brecha lógica" a ser preenchida entre as premissas e a conclusão do argumento. Alguns participantes julgaram ter identificado um pressuposto que supostamente fechava essa "brecha lógica". Normalmente estas "descobertas" surgem associadas a expressões como "O que ele quis dizer foi...".
No entanto como nestas sessões procuro que se cultive mais "o que se diz" que "o que se quis dizer", e como ninguém confessou ter poderes telepáticos para identificar as intenções argumentativas do Sérgio deixámos cair o seu argumento por "falta de clareza".
O Sérgio mostrou fair-play face a esta decisão unilateral do moderador e continuamos a nossa investigação.

O Tiago julgou identificar o "pomo da nossa discórdia" na ambiguidade do conceito de "legitimidade": "Consoante o usarmos num sentido de "legitimidade ética" ou "legitimidade epistemológica" a nossa resposta será diferente."

Para o Paulo outro conceito ambíguo é o de "provas". Para este habitué dos Cafés Filosóficos se entendermos "provas" num determinado sentido não há qualquer crença sem provas.
"Os textos bíblicos podem ser considerados provas. Uma pessoa educada numa determinada cultura pode aceitar determinados acontecimentos como "provas" para as suas crenças."
Esta interpretação lata do conceito de "prova" permitiu ao Paulo formular a sua resposta (a única negativa desta sessão):
Não é legítimo acreditar em Deus sem provas pois ninguém acredita em Deus sem provas. 

Esta resposta foi imediatamente posta em causa pela Cláudia através de um contra-exemplo:

Eu acredito em Deus sem provas.

Crítica que o Paulo não aceitou por, reiterou, não ser possível acreditar em algo sem provas.

O Tiago continuou na sua senda clarificadora e tentou resolver este impasse através da introdução de um novo conceito que pretendia mostrar que o Paulo estava o usar o conceito de "prova" num sentido muito específico que favorecia a conclusão que queria tirar.

Estás a usar prova no sentido de motivo mas não é esse o sentido comum de "prova". 

Além destas respostas uma outra que suscitou interesse foi a do Luís:

Sim, é legítimo acreditar em Deus sem provas pois a crença em Deus é uma questão de subjectividade.* 

Face à estranheza do moderador em ver um médico defender tal posição o Luís explicou-nos o seu argumento em termos de duas dimensões diferentes de crenças: Crenças que se inserem numa dimensão de subjectividade (crenças religiosas, por ex.) e crenças que se inserem numa dimensão de objectividade (crenças científicas, por ex.)
Para as primeiras, disse-nos, não são possíveis o mesmo tipo de provas que para as últimas, logo é possivel defender a legitimidade de acreditar em algo subjectivo sem provas objectivas uma vez que não é possível legitimar objectivamente algo que é do plano da subjectividade. O mesmo não defendia para as "crenças da dimensão objectiva", o que de alguma forma restabeleceu a confiança do moderador na classe médica.

Mais uma vez alguns participantes mostraram interesse em clarificar o conceito de "legitimidade".
Falamos de uma legitimidade ética ou de uma legitimidade epistemológica?, questionou o Tiago.

Por falta de tempo ficaram por analisar outras respostas que suscitaram "desconfiança" de alguns participantes como por exemplo a da Cláudia com nítidas ressonâncias kantianas.

Sim, também acreditamos noutras realidades que não são concretas como, por exemplo, as ideias de Liberdade, Igualdade, Mundo, Amor, etc... A ideia de Deus é só mais uma dessas ideias. (= númenos).

A Paula F. pôs em causa a originalidade desta ideia que já teria sido debatida no início aquando da resposta da Paula II.
No final da sessão, já sem tempo para discutirmos mais a questão inicial, procurámos centrar a nossa investigação no conceito de "prova" que se mostrou problemático para alguns participantes. Para isso cada participante respondeu à pergunta:

"O que é uma prova?"
(seguem algumas das respostas que apanhei e outras que alguns participantes me têm enviado)

Paula II - Uma prova é uma demonstração de uma verdade.
Isabel - É uma evidência justificada.
Luís - Uma demostração justificada.
Bruno - Uma realidade.
Filomena - É uma certeza, uma confirmação, uma demonstração.
Orlando - Uma prova uma vivência individual
Tiago - É a veracidade de um facto.
Zé - É algo em que acreditamos sem nos questionarmos.
Rui - Uma evidência que serve acto para argumentar.
Cláudia - É um facto que demonstra algo (ainda que provisoriamente).
Paula - É uma verdade irrefutável que advém de uma demonstração.
Paulo - Uma asserção que obedece a um sistema coerente.

Notas Finais


1 - A ideia com que fiquei no fim do Café Filosófico é que este pergunta suscita respostas mais emocionais que racionais nos participantes e, na minha opinião, isso seria notório se substituíssemos a pergunta inicial por: É legítimo acreditar que o João assaltou um banco sem provas?
Uma experiência para um futuro Café Filosófico.


2 - No início da sessão comentei com os presentes que é muito comum os participantes de um Café Filosófico acabarem a defender, muitas vezes sem o saberem, posições filosóficas defendidas por outros filósofos antes deles. A meu ver este facto só prova que o conhecimento filosófico está muito bem distribuido por todos nós, sendo as nossas posturas e valores o reflexo de posturas e valores de alguma forma filosoficamente universais. Num Café Filosófico tratamos de reconhecer e confrontar essas posturas e valores ao mesmo tempo universais e individuais.
No caso do argumento do Luís julgo enquadrar-se na posição de Alvin Plantinga defendida aqui e  apresentada aqui por Desidério Murcho:
(...) em certos contextos é epistemicamente legítimo acreditar em Deus sem provas - ou melhor sem provas cabais.

3 - A imprecisão conceptual comum nestas discussões com pessoas sem preparação filosófica, mais que nos assustar e preocupar devia-nos agradar. Um dos prazeres que retiro destas sessões é, exactamente, esta luta das pessoas em afinar e aprofundar os seus conceitos.
Tendo em conta que os conceitos são as ferramentas que um filósofo possui para as suas investigações trabalhar e aperfeiçoar esses mesmos conceitos individualmente e em grupo é um trabalho de uma dificuldade muito grande mas cujos resultados são inestimáveis.  Nesse sentido uma das preocupações de um moderador neste tipo de sessões deverá ser o de não se substituir ao trabalho de reflexão e pesquisa que cada um deve fazer por si próprio na formação e aperfeiçoamento da sua rede conceptual.


Notas de Participantes

Paula F.
Então cá vai o TPC:



Em resposta brevíssima à pergunta: O que é uma prova?


Respondi eu, que : Prova é uma verdade irrefutável que advém de uma demonstração.


Claro que muito haveria para dizer, mas o final da sessão não permitiu a discussão de nenhuma das respostas.


Quanto à sessão em si, onde nos foi colocada a questão: Se é legítimo acreditar em Deus, sem provas? Achei muito interessante o facto de todos os participantes terem afirmado que sim. Um consenso que não é muito comum... As razões que foram invocadas, todas foram, na minha opinião, muito similares, à excepção de duas. Embora vagas, todas passavam a ideia comum que "se há tantas coisas em que acreditamos e das quais não temos provas.... então Deus é apenas mais uma". Depois, é uma questão de argumentação: se uns compararam a crença em Deus à crença de uma mudança de cor de um semáforo, ou se afirmaram que Deus é um númeno são pequenas nuances discursivas (se é que me faço entender).


Interessante também foi o "acordar" do Paulo, quase no final da sessão e a mudança radical de postura: antes, embora tivesse chegado algo atrasado, havia concordado com a unanimidade do sim, chegando até a dizer: "Sim eu diria, que é a única forma de acreditar em Deus" (isto é, sem provas). Eis que "acorda" e muda de opinião: "Não, não é legítimo acreditar em Deus sem provas, uma vez que quem acredita tem sempre provas." Afirmação ligada ao seu raciocínio anterior, de que As Escrituras, os Livros Sagrados, legislavam, por assim dizer essa crença, — o que acendeu a discussão. A Cláudia (creio ser este o nome) rebateu a afirmação, deixando algo no ar, não menos interessante: "Eu sou crente e não tenho provas. Cheguei a Deus racionalmente" — pena o tempo não ter dado para perceber o que ela quis dizer...


Já agora, e para terminar, deixo as duas respostas que foram diferentes, a minha: Sim, uma vez que a fé/crença sai do domínio da razão (não necessitando dela para seu fundamento); e a do Luis: Sim, porque o acreditar diz respeito à subjectividade.


E pronto... Mais ou menos foi isto. Vamos lá a ver o que a próxima sessão nos reserva.


Beijos

4 comentários:

Paula Ferreira disse...

Ó Tomás, Não poderia estar mais de acordo com a afirmação:"A imprecisão conceptual comum nestas discussões com pessoas sem preparação filosófica, mais que nos assustar e preocupar devia-nos agradar." É aí que se encontra o prazer!
Paula Ferreira

Henrik disse...

Creio que a questão é, no mínimo, filosoficamente ambígua. O que está em causa efectivamente: a justificabilidade da crença enquanto conhecimento justificado (tal como Gettier a colocou) ou a justificabilidade da crença num ser superior, i.e., Deus? É que, filosoficamente falando, é legítimo crer em qualquer coisa. Dado que a crença não implica prova.
Atente-se que não estou a atacar nenhuma das conclusões, mas antes a questionar a própria questão que me parece mal colocada.
Cordialmente, H.

Henrik disse...

Diga-se que o conceito em prática é bastante interessante, não só para quem não tem preparação filosófica, como, igualmente, para quem a tem.

Tomás disse...

Olá Henrik,

a questão da ambiguidade é algo com que nos temos de confrontar em todas as questões filosóficas.

Ora aceite este meu desafio para verificarmos isso mesmo:
Dê-me um exemplo de uma questão filosófica que não seja ambígua.

Essa ambíguidade (endémica, digamos assim) é, porém, enfrentada nas sessões onde tentamos explorar os vários sentidos dos termos em questão. Claro que nas notas às sessões esse trabalho nem sempre é referido.

Se puder apareça num dos Cafés Filosóficos,

abraço,
Tomás