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domingo, 28 de fevereiro de 2010

27º Café Filosófico - "Pensar o impensável"

Este Café Filosófico (em dia de cheias no Rio Douro - 28 de Fevereiro de 2010) foi sobretudo um exercício de "pensar fora do quadrado", ou seja, procurou-se durante esta sessão deixar para trás os nossos quadros conceptuais habituais (a que a vida quotidiano nos obriga). Na senda do que Nietzsche apelidou de "transvalorização dos valores" (ou de conceitos) o que se pretendeu neste Café Filosófico foi exercitar e experimentar uma certa ginástica conceptual, no sentido de se perceber os diversos sentidos e significados de um conceito, assim como relativizar ou aligeirar um pouco a rigidez com que muitas vezes valorizamos determinados conceitos. "Pensar o impensável" ajuda-nos a ver o contexto dos nossos argumentos e asserções e a perceber que as críticas que nos fazem e que fazemos aos argumentos e asserções dos outros muitas vezes "falham o alvo", isto é, não estão na mesma contexto ou categoria do pensamento.

nota: Compreender os conceitos (ou as categorias de pensamento) que contextualizam um argumento, tais como empírico, epistemológico, lógico, subjectivo, paradoxal, etc., ao mesmo tempo que nos ajudam a perceber do que se está a falar, pode resolver muitos problemas (ou imbróglios) filosóficos.

O que há de bom neste exercício?
a) - Obriga-nos a pensar como não estamos habituados a pensar;
b) - Obriga-nos a pensar o oposto do que estamos habituados a pensar;
c) - faz-nos pensar sobre a forma como pensamos (e não sobre o conteúdo dos nossos pensamentos).

Síntese
A problematização é uma ferramenta específica da filosofia. Com esta exercício, "Pensar o impensável" procuramos tirar o pensamento do seu caminho comum.


"Pensar o Impensável" (descrição do exercício):

1 - Começou-se por pedir aos participantes que expressassem um juízo que, na sua opinião, não pudesse ser problematizado (posto em causa) para, em seguida

2 - Se encontrar o conceito que melhor caracterizasse cada um desses juízos (exercício de conceptualização/categorização):

Algumas das Frases Propostas:
"Hoje choveu no Porto." (Graça). Categoria - Juízo Empírico

"Este piano é um instrumento musical." (Daniel) - Juízo Lógico

"Penso Logo Existo." (João Carlos) - Juízo Lógico

"Eu sou portuguesa." (Mª Manuel) - Juízo Empírico

3 - Escolheu-se o juízo do João Carlos/Descartes, "Penso Logo Existo" e, em seguida, pediu-se aos participantes que o problematizassem, isto é, que o pusessem em questão ou que o refutassem. De seguida procurou-se, de novo, encontrar o conceito/categoria que melhor enquandrasse esta tentativa de problematização.

i) "Esse juízo não é verdade para todos os casos. É possível existir sem pensar." (Rui) - Juízo Empírico

ii) "Não é um juízo informativo. É redundante." (Mª Manuel) - Juízo Lógico

iii) "O que quer dizer com essa posição?" (Vítor) - [Pergunta pela] Pertinência

iv) "Posso pensar sem existir?" (Lina) - [Pergunta] Lógica / Empírica / Subjectiva (?)

v) "Pensar implica existir?" (Tiago) - [Pergunta] Lógica

- Discussão em torno das diferenças (ou semelhanças) de sentido entre a pergunta iv) e v).
O Luís avançou a ideia de que a iv apresenta uma possibilidade e a v) uma necessidade, sendo que o conceito para caracterizar iv) deveria ser Empiríco e para a v) Lógico. Esta sugestão não foi aceite pelo grupo.

Vídeo da Sessão aqui

domingo, 31 de janeiro de 2010

25º Café Filosófico – Filosofia e Música


http://filosofiacritica.wordpress.com/

Esta sessão no Clube Literário do Porto começou e acabou com um concerto de Guitarra Clássica por dois amigos nossos, o Tiago Sousa (à direita na foto) e o Ricardo Gomes (à esquerda). O objectivo da sessão era reflectir filosóficamente sobre a música. Não sobre a música que ouvimos no concerto, mas sobre a música em geral.

A partir da pergunta “A música é uma linguagem?”, e como é costume nos Cafés Filosóficos, procurámos “desbastar” a discussão das habituais opinões que se multiplicam facilmente (todos temos opiniões e estas, muitas vezes, impedem-nos de pensar) e criar uma rede de argumentos e de conceitos própria de uma verdadeira discussão filosófica que nos permitisse alcançar uma maior compreensão do(s) problema(s) que tínhamos pela frente.
Nesse sentido procurámos entre os participantes desta sessão argumentos, refutações desses argumentos e contra-argumentos.

As notas que se seguem foram retiradas na sessão pela nossa amiga Chantal e deixo-as aqui na íntegra.

Até à próxima,

Tomás

A música é uma linguagem?


Primeiro Argumento: Sim é uma linguagem porque é uma convenção sonora. (Augusto)

Primeira Refutação: Não concordo porque na música há liberdade de criação. (Ana)

Segunda Refutação: Não concordo porque é a música é Arte, um acto criativo logo não convencional.

Terceira Refutação: A música só é uma convenção sonora quando escrita. (Fátima)

Contra-Argumento (à Terceira Refutação): Interpretar (uma música) é convencionar. (Augusto)



Segundo Argumento: Sim é uma linguagem porque é uma comunicação artística (Filipe)

Pedido de clarificação do conceito de comunicação: A comunicação necessita de um emissor e de um receptor, ou pode um emissor poder ser simultaneamente receptor? (Luís)

Primeira Refutação: A música só é linguagem quando é interpretada. Há a necessidade de receptor. (Vieira)

Contra-argumento: A pedra de Roseta que já existia enquanto linguagem e só depois foi «descodificada». Ou seja, havia linguagem antes mesmo de ser interpretada.


Terceiro Argumento: Sim, porque é uma forma de expressão (Arminda)

Pedido de clarificação do conceito de expressão: Porque é que o movimento de uma bailarina é arte e o mover do mar não? Qual a diferença entre ambos? Qual a fronteira? (Luis).

Da clarificação supra resultou a inclusão do termo «consciência» para definição da forma de expressão:

Terceiro Argumento (alterado): Sim, porque é uma forma de expressão consciente.


Quarto Argumento: Não, porque não há uma ligação entre a percepção musical e a realidade. (Tiago)

Primeira Refutação: Todos os símbolos (notas musicais) são intencionais. (Fátima)

Segunda Refutação: O primeiro homem a ter criado a música deve tê-lo feito com base nos sons da natureza. (Mª Manuel)

(Tiago referiu que a música tem hoje uma outra dinâmica).

Notas finais:

- Necessidade de se clarificar o que se entende por realidade. Sem essa clarificação cada um interpreta as coisas à sua maneira. (Fátima)

- A música é «tão linguagem» que é escrita. (Augusto)

- Intervenção sobre a importância de assegurar que a interpretação foi efectivada no acto (e não com base em conhecimentos prévios). É batota falar à posteriori: “Alguém diria que a obra “Inverno” de Vivaldi refere a estação do ano “inverno” se já não soubesse isso? (Tiago)

- Existe, além do significado, uma significância. Sendo uma expressão artística, a música é mutável enquanto linguagem. (Filipe)

- A música é uma linguagem se for interpretada como tal. (Rui)


Nota pessoal: Obrigado a todos os Filósofos presentes que possibilitaram toda esta criação de sentidos aqui reproduzida.

Páginas sobre Filosofia da Música: Aqui, Aqui, Aqui e Aqui

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

22º Café Filosófico - O Tempo



http://filosofiacritica.wordpress.com/


Conceptualização
Começou-se por desafiar os participantes a sugerirem conceitos filosóficos a aprofundar nesta sessão.
Tempo, Verdade, Liberdade, Erro e Moral foram os conceitos propostos. Por votação escolheu-se o conceito de tempo

Problematização
1 - O tempo existe? (Isabel)
2 - Existe o tempo no pensamento? (Jorge)

Argumentação
1 - O tempo existe?
A discussão andou em torno das noções de objectividade/subjectividade do conceito de tempo.
Arriscaram-se algumas ideias interessantes de "tempo enquanto mudança" (Raquel) e de "tempo enquanto percepção de mudança" (Rui).

2 - Existe o tempo no pensamento?
Um dos participantes, interessado nas questões do pensamento, argumentou que no "pensamento meditativo o tempo é um só tempo pois durante a meditação o pensamento é um momento único"

Definição
Como forma de sintetizar os conceitos discutidos durante a sessão procurou-se responder à questão:
3 - O que é o tempo?

- O tempo é a forma de determinação da interioridade. (Rui M.)
- O tempo é um referencial humano usado para sequenciar acontecimentos. (Luís)
- O tempo é uma conceptualização da impermanência. (Rui)

O interesse destas definições no fim de uma sessão é fazer com que os participantes sintetizem para si alguns dos conceitos abordados durante o Café Filosófico, não no sentido de uma conclusão final, um ponto de chegada, mas, exactamente, um ponto de partida para novas problematizações, abrindo novos caminhos de investigação, encontrando novos conceitos relacionados conceito central: o tempo.

Numa última reflexão final sobre os conceitos associados a cada uma das definições atingidas foi criada a seguinte rede conceptual de tempo:
- tempo enquanto processo;
- tempo enquanto limite;
- tempo enquanto ferramenta;
- tempo enquanto referência;
- tempo enquanto interpretação

Como é costume duas horas não deu nem para aquecer...

Até à próxima,

Tomás

domingo, 4 de outubro de 2009

16º Café Filosófico no CLP - "Sonhos"

Fotografia: José Rui Moreira Correia

Sonhei esta noite com uma máquina que mostrava as coisas tal como elas já não eram.
Fernando Lanhas in "Sonhos"

A partir de alguns excertos da obra "Sonhos" de Fernando Lanhas falámos da morte, do fim, da eternidade, da libertação, do medo e de diferentes estados de consciência.

No final do Café Filosófico pediu-se aos participantes que respondessem por escrito à questão
"O que é um sonho?"

"Um sonho é uma utopia";
"Os sonhos são os nossos desejos frustrados";
"Alguns sonhos podem ser premonitórios";
"Os sonhos são o que as coisas virão a ser. Tornamo-nos naquilo que sonhamos";
"Sonhar é voar dentro de nós reinventando-nos";
"Um sonho é um mundo incorporado, luminoso ou não; uma herança intemporal";
"Um sonho é uma edição/manipulação/construção do material próprio que é a vida";
"Uma forma diferente de passar pelo rio da vida";
"Uma visão reinventada da realidade";
"Um sonho é uma imagem de uma qualquer realidade".